O COB e o Juventus: marcas e marcas.

Por Jayme Serva

Zeloso de sua marca, o Comitê Olímpico Brasileiro bate na mesa e diz que a marca “Olimpíadas” não pode mais ser usada para as boas e velhas competições de matemática entre escolas. Isso porque a marca “Olimpíadas” seria de uso estrito da instituição. É óbvio que há um tremendo exagero (onde ficam os descendentes do rei Pélope de Olímpia, que começou a brincadeira em 776 a.C.?)

Mas há que se admirar o zelo pela marca. Os nossos maiores clubes de futebol caminham para cercar suas marcas de cuidados que, ao mesmo tempo que as preservam, fazem com que rendam dividendos. O primeiro, já há algumas décadas, foi o Flamengo. Mais recentemente, e com crescente profissionalismo, Santos e Corínthians têm tentado zelar pelo uso de seus símbolos, inclusive contratando empresas especializadas.

Com isso, o que vemos são os clubes  agregando espetáculo a suas marcas. A Vila Belmiro, estádio do Santos, compensa suas pequenas dimensões com o tamanho da história do clube, e promove deliciosas visitas guiadas. O museu que o São Paulo montou no Morumbi é belíssimo. A marca Corinthians começa a ganhar corpo, enquanto seu estádio em Itaquera toma forma (deveria restaurar o Parque São Jorge, seu antigo estádio, hoje inativo, só para promover visitas a ele; seria investimento pequeno frente ao que poderia render).

Há clubes que ainda não se deram conta de seu potencial de marca. O velho Juventus, da rua Javari, um ícone do futebol paulistano, encravado no tradicional bairro da Moóca, não permite visitas a seu estádio, o Conde Rodolfo Crespi, a não ser com autorização da presidência (o que quer dizer “não venha”). A explicação é a manutenção da privacidade nos treinos, o que é legítimo — mas mostra que quem dirige o “Moleque Travesso” ainda não percebeu o potencial que a marca Juventus tem.

Entre os dois extremos — o da marca COB, que quer tudo e sequer dá moleza aos futuros cientistas do Brasil, e o da marca Juventus, que não quer nada, nem mesmo receber visitantes — mora o desenvolvimento das marcas ligadas ao esporte no Brasil. O COB compra uma antipatia desnecessária ao ameaçar as escolas e universidades. O Juventus perde a chance de mostrar seu espetáculo. A diferença? Como marca, o Juventus ainda não começou. O COB trabalha forte para se acabar.

O chumbo grosso e a propaganda

Por Jayme Serva

Deu no Blue Bus: “Jornal colocou anúncio de loja de armas bem ao lado de notícia do tiroteio”. O site de comunicação conta que o jornal Rock Hill Herald colocou o anúncio de varejo de uma loja de armas bem ao lado da notícia do massacre de Newtown, que matou 26 pessoas, entre elas 20 crianças.

A publicação se desculpou pela “infelicidade” da edição, enquanto o blog especializado em comunicação Copyranter espinafrou o veículo por ter cometido esse “descuido”. “O editor executivo deveria ver isso e poderia ter trocado o layout do jornal facilmente”, diz Mark Duffy, o blogueiro que edita o site.

Nenhum comentário sobre o fato aterrador de que, no país em que um lunático acabou de detonar uma pequena multidão — entre os mortos, está a própria mãe do assassino –, portando 3 armas diferentes, se colocam anúncios de varejo vendendo armas, da mesma forma que aqui se vendem dormitórios Bartira ou arroz agulhão extra. A imagem do anúncio é, por si só, chocante. Colocá-la ao lado da notícia sobre o crime, com foto dos familiares e tudo, é apenas evidenciar a barbárie, é colocar na mesma página as duas pontas de um mesmo problema.

De fato, me faz pensar se o editor não teria feito isso de propósito, uma forma velada de escancarar a estupidez de um país em que, em pleno século 21, se justifica a liberdade de comprar, possuir e portar uma arma com argumentos do começo do século 19, quando metade dos americanos tinham de se defender sozinhos das ameaças mais variadas, além de caçar o próprio alimento.

Hoje, tanto o poder de polícia está em cada canto daquele rico país, como as armas ganharam recursos que seriam inacreditáveis nos tempos de Daniel Boone e Wiatt Earp. Não faz mais sentido que alguém possa comprar livremente um AR-15 ou uma UZI ou mesmo uma pistola automática com mira laser, que dispara 10 tiros por segundo. O discurso de instituições conservadoras, como o National Rifle Association, soa hoje como escárnio sobre os cadáveres que, mais uma vez, a liberalidade injustificável produziu. Hoje, o telefone é que defende a população. O livre comércio de armas abastece débeis mentais que se acham personagens de vídeo-game. Muitos deles passam do ensaio à ação — e quando o fazem, estão abarrotados de armas e munição. Foi o que, mais uma vez, ocorreu.

Olhando esse quadro estapafúrdio, talvez tenhamos de agradecer ao editor do Rock Hill Herald, mesmo que tenha diagramado a página por engano.

Israel e a Palestina: até quando o impasse?

Por Jayme Serva

Israel já deixou claro. Não tem intenção de cumprir os tratados de 1947, que previam dois estados convivendo na Palestina, nem qualquer outro. Hoje, o governo de Israel não apenas faz vista grossa como estimula a colonização dos territórios ocupados em 1967.

Há o argumento do radicalismo dos árabes, que jamais aceitaram a convivência com Israel (à exceção do Egito, a partir dos tratados de Camp David) ou sequer a existência do Estado judeu.  Sua simples extinção é defendida por muitos deles, o que justifica o permanente estado de alerta e a estrutura militar poderosa.

Mas o fato é que não há um movimento sequer, desde o assassinato de Yitzhak Rabin, para uma saída que não seja a militar, e que busque a convivência dos Estados. Fica evidente que a radicalização se instala e que qualquer possibilidade de conciliação já se extinguiu.

O que pode resultar dessa radicalização? É evidente que ela não durará eternamente. O pensamento de senso comum nos leva à certeza de que um lado prevalecerá sobre o outro. Qualquer que seja, trará consequências trágicas. Dado o isolamento do Estado de Israel — um país europeu plantado solitariamente no meio do Oriente Médio — e a perpetuação do impasse, é de se imaginar que, mesmo com a ajuda da maior potência bélica do planeta, um dia essa pequena fortaleza vai tremer.

Do jeito que a coisa vai, a única perspectiva que os árabes e persas vislumbram é a destruição pura e simples de Israel e de seu povo. A radicalização israelense não ajuda a mudar isso. Os argumentos são os de que as tentativas de entendimento seriam inúteis. Não é o que a história mostrou, ao menos em duas ocasiões. Camp David e Oslo trouxeram a possibilidade de um caminho pacífico. Mas a radicalização se acentuou justamente quando uma liderança que defendia a paz, como Rabin, foi assassinado por um fanático nacionalista — e segundo as teorias da conspiração, apoiado por agentes secretos (veja aqui e aqui) do Shin Bet.

O que esperar? Com a evolução da tecnologia e o barateamento de equipamentos sofisticados, a diferença de capacidade militar de Israel deixa de ser inatingível. Não é impossível que, em 20 ou 30 anos, Irã, Síria e grupos terroristas transnacionais consigam causar danos significativos a Israel e seu povo. Não haverá um caminho que evite isso e que eduque para a paz? 20 ou 30 anos são o  período que separa duas gerações. É tempo suficiente para que se comecem a deixar para trás as razões do conflito. Mas o esforço nesse caminho tem de começar já.

PT: sua alma, sua palma

Por Jayme Serva

Parecia um sussurro, agora já é um burburinho, e cresce.

Mais e mais petistas reclamam e mostram seu inconformismo com o relatório do deputado Odair Cunha (PT-MG), que acabou retirando a recomendação de indiciamento do jornalista Policarpo Júnior, de Veja, e do procurador Roberto Gurgel.

Frases como “Eu não voto, mais, nesse partidinho”, “Bye, bye, PT”, “Tristeza, indignação, desesperança e vergonha” sucedem-se em comentários nas redes sociais, revelando desapontamento e descrença na capacidade do partido de defender as causas mais nobres e de atacar os vilões eleitos pela militância — a imprensa, a “direita”, os poderosos.

Descontando uma puerilidade constrangedora, visível na maioria desses comentários, o que se vê é que o pragmatismo do PT talvez tenha esgotado seu crédito junto a um eleitorado acima de tudo disposto a acreditar. Acreditar que o PT estava enganando a direita — Sarney, Maluf, Costa Neto et caterva — para em seguida dar-lhe uma rasteira e fazer imperar o reinado do bem contra o mal. O mal, no caso, eram o PSDB, o PPS e o DEM. Este último é sucessor do PFL, partido que surgiu de uma dissidência do PDS, para apoiar a transição democrática e o nome de Tancredo Neves para conduzi-la. Já o PDS, agremiação que sustentava o governo militar, mudou de nome para PP e hoje tem um ministério no governo Lula. O nome mais destacado do partido é do ex-governador e hoje deputado Paulo Maluf, também destaque em lista internacional de procurados pela polícia.

Como se vê, a escolha do PSDB como inimigo preferencial não se deveu a qualquer cuidado ideológico do petismo, mas resumiu-se a uma disputa por poder. Por razões difíceis de explicar, mesmo quando guinou fortemente à direita, viabilizando a candidatura Lula-2002, o PT manteve sua militância, sempre atribuindo as críticas que recebia a uma imprensa traiçoeira e mal-intencionada e a uma elite ressentida. Assim, alimentava um certo pensamento mágico, bajulando os poderosos, de um lado, e piscando os olhinhos para a militância, de outro.

Mas há algo mais do que o recuo de Odair Cunha a gerar o inconformismo na militância petista. Mas, ainda disciplinada, é no deputado que ela desagua a dor de ver os sonhos e os ideais de uma sociedade mais justa guardados na bolsa de tão pouco principesca Rosemary.

No entanto, quem viu a disputa ideologicamente artificial que o PT empreendeu, notadamente a partir das eleições municipais de 1985, contra os que haviam recém-sucedido a ditadura, e buscavam um caminho para construir uma frente democrática com interesses comuns, logo entendeu que aquilo não acabaria bem.

Uma enorme capacidade de canalizar os anseios de uma sociedade cheia deles, de ecoar as palavras de ordem aparentemente mais justas (quem poderia ser contra “terra para quem nela trabalha”, “pelo fim da espoliação dos patrões”, “[o parlamento] são 300 picaretas com anel de doutor”), de fazer boa publicidade e de manter um discurso coeso, levaram o PT à presidência. Dali, o carisma de Lula fez o resto, em terreno fértil, galvanizando sua imagem de pai dos pobres, dos ricos e dos remediados.

Agora, a militância que o ajudou a chegar lá começa a reclamar. Como se Lula e o PT não tivessem estado sempre no mesmo lugar. Põem a culpa em um PT que mudou. Não mudou, não, apenas mostrou o que sempre foi. O que surpreende é a quantidade de gente inteligente que só vê isso agora, quando o problema, já visível a olho nu, foi traduzido para os termos de um folhetim de rodoviária. É triste dizer isso aos amigos petistas (dos meus, 99% de primeiríssima qualidade): sua alma, sua palma.

Quem?

Por Jayme Serva

O site do PT e o blog de José Dirceu calaram. Ninguém fala nada sobre Rosemary, a chefe de gabinete do escritório paulistano da Presidência da República. Mais realista que o rei, um solitário Paulo Henrique Amorim responde ao noticiário da forma como costuma fazer: acusando a imprensa. Os “blogs independentes” dos petistas ficam entre o envergonhado (Kotscho) e o triunfalista (Eduardo Guimarães).

E por que ninguém fala claro, ninguém se defende? Porque essas notícias são um vidrão de nitroglicerina. Se os malabarismos da política e a disposição ao sacrifício pessoal de José Dirceu salvaram Lula do mensalão, agora o ex-presidente arrumou sua Monica Lewinsky em versão dois litros.

Embora ninguém na grande imprensa tenha dito nada de mais comprometedor, as evidências transbordam. Cinco ligações, em média, por dia, de Lula ao gabinete — depois que ele já tinha deixado a presidência. Indicações inatingíveis, para uma funcionária com o cargo que Rosemary ocupava, realizadas, algumas a fórceps, como a indicação de Paulo Vieira, ora em cana, para a Agência Nacional de Águas. Vieira só foi aceito numa inacreditável terceira votação no Senado, empurrada pelo presidente da Casa, José “Homem-incomum” Sarney.

É óbvio que tem toucinho debaixo da farofa. Recuperados do choque, os petistas virão, treinados e sincronizados, defender na rede o seu guru, desqualificando a imprensa e dizendo que Rosemary é mais uma tentativa de golpe dos conspiradores de sempre, mais um atentado contra o PT e sua figura mais emblemática.

O problema, para eles  é que fica cada vez mais difícil de colar. A postura envergonhada do PT (que divulgou a exoneração da funcionária e não deu uma linha sequer sobre as acusações) e de Dirceu (profundo silêncio) são um sintoma preocupante de que talvez se considere que o fardo começa a pesar. Doze anos de cana para defender um presidente que concede passaporte diplomático a uma secretária, cujo papel em suas viagens ao exterior era absolutamente nebuloso? Ninguém merece. Daí se entende que desta vez Lula vai ter de esperar a batata esfriar sozinho. Por enquanto, Dilma cresce em cima da decadência do ex-chefe. Precisa tomar cuidado com um abraço muito apertado vindo dele.

E se vivêssemos todos juntos?

Por Jayme Serva (publicado anteriormente em Blue Bus)

A reunião acontecia por recomendação de uma assistente, que conhecia a pessoa que julgava certa para nossos negócios naquele momento. O assunto era uma possível consultoria sobre leis de incentivo. Pude notar que o grupo todo tinha mais ou menos a mesma idade, todos um pouco mais velhos do que eu. Logo, um deles assumiu o papel do líder. Tomou a palavra e não a largou mais até o momento em que considerou que eu estivesse completamente convencido.

Depois de dois segundos de um difuso mal-estar, perguntei qual era o histórico do grupo. Havia um administrador de empresas, e os outros (eram quatro) vinham de diferentes funções em agências de publicidade. Todos haviam decidido que não dariam mais sua força de trabalho para os barões e as multinacionais. Todos haviam decidido que iriam fazer um trabalho mais nobre. Todos estavam aliviados pelas gravatas desatadas que repousavam há meses ou anos nos armários. E todos tinham alguma observação a fazer sobre algo que, para eles, já nao existia mais, e que tinha sido muito bom.

Não fechamos negócio algum, o que eu precisava não era bem o que o grupo oferecia, era bem mais modesto e simples. Mais um pouco de conversa, dois ou três nomes de amigos comuns apareceram, um não-obrigado para os cafés a mais que ofereci. Despediram-se. Nunca mais os vi. Avisei minha assistente que tinha ido tudo bem, mas que não faríamos negócio, o pessoal que ela havia recomendado era “over-qualified”, eu os indicaria a outras pessoas.

Eu tinha assistido dois dias antes ao recém-lançado “E se vivêssemos todos juntos?”. Nele, os personagens decidem ir morar em uma mesma casa, para envelhecer juntos, e dignamente. Juntos e dignamente. Era assim que aqueles homens haviam tentado me vender algo que ainda não sabiam bem o que era. Juntos e dignamente. Fui para casa atrás de um uísque, que acabei não tomando.

Reforma política: qual?

Por Jayme Serva

Há uma discussão em pauta que, me parece, vai dar ainda muito pano pra manga: a tal reforma política, expressão, aliás, que só perde em frequência nas bocas de petistas para “companheiro”. Militantes das mais altas patentes do partido do governo dizem aos quatro ventos que “assim não dá, sem uma reforma política, a gente vai ser obrigado a continuar assim, governando com o Maluf, usando caixa 2, pagando e recebendo propina, fazendo acordo com latifundiário…” Todos os deslizes que os petistas cometeram nos últimos 12 anos não foram culpa deles, mas sim da ausência de uma reforma política que lhes permita fazer apenas o bem, sem olhar a quem e sem ter de seduzir os financiadores, esses corruptores das pessoas do bem.

Mas de que reforma política falam os companheiros? Insistem em colocar, no topo da lista, a adoção do financiamento público de campanhas, com a proibição da contribuição privada, seja de empresas, seja de pessoas físicas. Todas as campanhas políticas do país seriam financiadas por um fundo a ser composto por dinheiro da União, a ser calculado por uma fórmula simples, que multiplica o número de eleitores por R$ 7,00 (valores de 2005).

À primeira vista, é uma proposta estapafúrdia, mas cabe explicá-la melhor. As campanhas políticas já são financiadas em grande parte pelo Estado. O fundo partidário e o uso de um próprio da União, concedido à iniciativa privada, que é o tempo de rádio e TV, são recursos públicos concedidos aos partidos políticos. A ideia é que se proíba a parte privada, impedindo que pessoas e empresas doem recursos a partidos políticos e/ou candidatos, evitando assim a prevalência do poder econômico na escolha dos homens e partidos que nos representarão no Legislativo e nos comandarão no Executivo. Há quem diga que isso será o renascimento glorioso do caixa 2, mas os modernos mecanismos de controle podem fazer alguma frente  a isso.

O que parece mais intrigante é o que não está sendo dito nessa discussão: quando o coro petista na mídia e nas redes sociais fala que só a reforma política vai resolver as mazelas institucionais por que passamos todos, evidentemente não fala apenas do financiamento público de campanhas. Mas não fica claro o que defendem, talvez porque o que defendam não seja exatamente popular. É o parlamento unicameral? É o voto distrital, seja puro ou misto? É o voto por lista para eleições proporcionais? É o fim (ou a expansão) da reeleição? É o arrocho nas regras para a formação de partidos políticos ou sua manutenção?

É uma discussão inadiável, mas é preciso que parlamentares e partidos políticos se posicionem com mais clareza, para que a opinião pública vá participando mais desa discussão. Aliás, louvável a posição do deputado carioca Miro Teixeira (PDT) para quem questões-chave, como voto obrigatório e sistema representativo (distrital, proporcional ou misto) devam ser submetidos ao voto popular. “Quem tem legitimidade para decidir as regras eleitorais são os eleitores, não os eleitos”. Sábias palavras.

O carola, a Palestina e o PCC

Por Jayme Serva

Findo o feriado (em São Paulo, capital, o feriado começou em 15/11 e terminou em 20/11; dado o tamanho do enforcamento, deveria ser a comemoração de Tiradentes, mas é a somatória da Proclamação da República com o Dia Nacional da Consciência Negra), durante o qual não saí da cidade, e com trabalho a ponto de não serem os dias de folga suficientes para que eu entregasse todas as tarefas, ligo o rádio.

Não deveria. Entreouço ali o ministro-chefe-não-sei-bem-do-quê, Gilberto Carvalho — último representante não-padre da Teologia da Libertação,embaixador de Lula no governo Dilma, entre outras desqualidades –, a proferir sacanagens (sim, esses carolas não resistem a uma sacanagenzinha de vez em quando). Perguntado sobre a crise palestina, o sociocarola não perde tempo: diz logo que os tristes acontecimentos da Faixa de Gaza resultaram numa mortandade menor do que a da crise da segurança pública em São Paulo.

Uma estatística boboca mostra que, tomando o número de assassinatos no pior dia da crise em São Paulo e multiplicando por 365 (Carvalho, este é o número de dias em um ano), ainda assim teremos algo como 20 por cento a menos do que o Rio de Janeiro em assassinatos por 100 mil habitantes. Se levarmos a comparação a Salvador, alegremente governada pelo lado axé do PT, o capote estará montado.

É evidente o que querem os donos do poder federal em relação a São Paulo. Eufóricos com a tomada da Prefeitura (herdarão o melhor dos mundos, uma administração organizada e com dinheiro em caixa, ao contrário do que legaram), querem agora avançar sobre o governo do Estado. Para isso, vale qualquer coisa. Mentir, chantagear, aproveitar, vampirar, o que for preciso. A frase do carola predileto de Lula é apenas um exemplo. Antes dele, o próprio ministro da Justiça, o paulista José Eduardo Martins Cardozo, pré-candidatíssimo à vaga de Geraldo Alckmin, já havia tentado explorar a crise a seu favor. Quis o destino, ou pediu o anfíbio barbado, que Cardozo fizesse a infeliz declaração sobre a qualidade dos presídios — pertinente, caso os calabouços horrorosos a que se referiu não fossem responsabilidade também sua.  O que acontece em São Paulo é grave. É crime organizado enfrentando o Estado. Crime organizado que se arma pelos buracos da nossa fronteira (ou Cardozo acha que os AK-45 vêm dos pátios das cadeias que ele considera medievais ou ainda dos extensos canaviais de São Paulo?).

O Brasil pós-Collor aprendeu. Compensa uma despolitização generalizada com um pragmatismo absoluto. Tornamo-nos uma democracia de resultados — o que não é ruim, ao contrário. Quem aprendeu a surfar nessa onda foi justamente o homem público que melhor entendeu o papel da mídia, entre todos que tivemos: Lula. Governou com os fundamentos econômicos de FHC e, a partir dos programas de inclusão social do antecessor, construiu uma base eleitoral imbatível.

Agora chegou a hora de ver os limites dessa manipulação. Já ultrapassam aqueles eticamente mínimos, isso pode-se ver desde já. Como ficarão, só o tempo dirá. Mas as manifestações dos dois ministros já mostram que, perto do que esses paladinos da justiça podem fazer, as leis semiescritas do PCC parecerão até um padrão de ética e comportamento público para as futuras gerações.

E agora, Josés?

Por Jayme Serva

Ambos foram líderes estudantis dos mais importantes de seu tempo. Ambos amargaram exílio, por conta de perseguição política. Ambos voltaram ao país antes da promulgação da Lei de Anistia, um permanecendo clandestino, outro “semi-legalizado”, podendo viver abertamente no país, mas sem direitos políticos. Após a anistia, ambos assumiram a linha de frente em correntes políticas de oposição à ditadura militar.

Ambos tinham uma meta: chegar à presidência da República e conduzir o Brasil a dias melhores (cada um dentro de sua visão do que fosse isso). 2012 foi o ano em que a vida pública de ambos terminou, num igual e melancólico fracasso.

José Dirceu e José Serra vivem o epílogo de sua história amargando derrotas igualmente dramáticas — embora o destino de Dirceu se assemelhe ao enredo de uma tragédia, enquanto o de Serra se configure mais como um romance realista.

Não se pode negar o papel de ambos na travessia desse deserto que separava o Egito da ditadura da Canaã da plenitude democrática, os anos de transição entre a posse de Sarney e o impeachment de Collor de Melo. Cada um em uma estrada diferente, Serra e Dirceu foram diretores de cochia, sempre ajudando os atores protagonistas a levar o país a novos patamares de desenvolvimento, tanto político como econômico e social. Ambos esperaram pacientemente a sua vez de pisar o proscênio. Ambos chegaram a ser o mais importante ator coadjuvante. Ambos queriam o papel principal. A nenhum dos dois faltou luta.

O que faltou aos dois heróis da transição foi justamente um enredo vulgar, um roteiro folhetinesco, desses que acabam em casamento, no caso dos galãs, e no trono, no caso dos heróis. O que se configura, nas biografias de Serra e Dirceu, é pura literatura. Duas vidas como joguetes na pena de um autor inspirado, dois pescadores de Hemingway, dois Quixotes, dois Brás Cubas. É ainda possível que o epílogo de ambos se arraste por muitas páginas. É ainda possível que o enredo traga novas peripécias. Mas nenhum dos dois tem mais qualquer chance de ver a tão sonhada vulgaridade literária vir salvar suas histórias. Péssimo para eles. Um manjar para seus futuros biógrafos.

ENEM: mais um puxadinho

Por Jayme Serva

O ENEM 2012 mobilizou 6,5 milhões de estudantes em todo o Brasil. É o segundo maior exame de seleção do mundo em número de participantes, perdendo apenas para o vestibular unificado da China.

Criado em 1998, durante a gestão de Paulo Renato de Souza no Ministério da Educação, o ENEM tinha a finalidade de avaliar as escolas e seus currículos e, com isso, estabelecer os Parâmetros Curriculares Nacionais. Terminado o governo FHC, os novos ocupantes do MEC tiveram a ideia genial de adaptar o exame para cumprir outros fins, além dos originais. Assim, o ENEM passou a servir como vestibular, sendo o instrumento central do Sistema de Seleção Unificada (SiSU), que dá acesso a universidades públicas federais. Também é utilizado para conceder vagas do ProUni e financiamentos do FIES (fundo de crédito educativo do governo federal). Até como exame de conclusão de cursos de Educação de Jovens e Adultos — EJA — o ENEM é utilizado.

Para dar conta de tantas atribuições, o exame sofreu uma profunda transformação. De 63 questões a serem respondidas em 4 horas, passou a ter 180 questões e 10 horas de duração, divididas em dois dias. Em 2013, serão dois exames por ano.

Essa imensa adaptação de funções, atribuições e formatos, esse megapuxadinho, resulta em um processo de eficiência no mínimo duvidosa.

A começar do formato da prova. Não chega a ser um exame aprofundado, como é, por exemplo, a segunda fase da FUVEST, mas é muito mais extenso e exaustivo do que a primeira fase do exame paulista. Seu conteúdo parece mais um imenso teste de compreensão de leitura (necessária mas não suficiente para atestar capacidade de cursar uma universidade) do que um real teste de aferição de conhecimento nas diversas áreas do saber.

Por ser um exame de alcance nacional, tem provocado distorções sérias. No caso dos cursos de medicina, o uso do ENEM como exame unificado de seleção tem feito com que muitos jovens procurem universidades federais menos concorridas. Assim, em 2012, só 13 das 80 vagas de medicina da UFAL foram para estudantes de Alagoas. Na UFAM, a reitoria decidiu que metade das vagas seria pelo ENEM e metade por processo seletivo contínuo — pelo ENEM, nenhum dos selecionados em medicina era do Amazonas.

O que fica claro é que, para avaliar as instituições, sua atribuição original, o ENEM podia ser centralizado, uma vez que o que importa é a evolução ano a ano, seja a específica de cada instituição, seja a comparativa entre instituições. Não era, na origem, um exame de seleção. Já para avaliar a capacidade do aluno de cursar uma universidade, os critérios e a dinâmica deveriam ser outros. A começar pela descentralização. Nada garante que um exame composto em Brasília sirva com igual eficiência para aferir a capacitação de alunos do Amazonas e do Rio Grande do Sul.

Quanto às nobres intenções do governo, de eliminar uma forma elitista e massacrante de seleção, o que se fez foi criar o mesmo clima de tensão (ou pior), com um exame infinitamente inferior.

Por que não devolver às universidades o direito a selecionar seus alunos da forma que acharem mais adequada? Por que não acrescentar a eventuais exames vestibulares o critério do desempenho escolar do aluno? Da forma que está, o MEC simplesmente substituiu seis por meia dúzia, e ainda paga os juros do desgaste e dos riscos que uma operação monstro como essa provoca.