Arquivo mensal: novembro 2012

Quem?

Por Jayme Serva

O site do PT e o blog de José Dirceu calaram. Ninguém fala nada sobre Rosemary, a chefe de gabinete do escritório paulistano da Presidência da República. Mais realista que o rei, um solitário Paulo Henrique Amorim responde ao noticiário da forma como costuma fazer: acusando a imprensa. Os “blogs independentes” dos petistas ficam entre o envergonhado (Kotscho) e o triunfalista (Eduardo Guimarães).

E por que ninguém fala claro, ninguém se defende? Porque essas notícias são um vidrão de nitroglicerina. Se os malabarismos da política e a disposição ao sacrifício pessoal de José Dirceu salvaram Lula do mensalão, agora o ex-presidente arrumou sua Monica Lewinsky em versão dois litros.

Embora ninguém na grande imprensa tenha dito nada de mais comprometedor, as evidências transbordam. Cinco ligações, em média, por dia, de Lula ao gabinete — depois que ele já tinha deixado a presidência. Indicações inatingíveis, para uma funcionária com o cargo que Rosemary ocupava, realizadas, algumas a fórceps, como a indicação de Paulo Vieira, ora em cana, para a Agência Nacional de Águas. Vieira só foi aceito numa inacreditável terceira votação no Senado, empurrada pelo presidente da Casa, José “Homem-incomum” Sarney.

É óbvio que tem toucinho debaixo da farofa. Recuperados do choque, os petistas virão, treinados e sincronizados, defender na rede o seu guru, desqualificando a imprensa e dizendo que Rosemary é mais uma tentativa de golpe dos conspiradores de sempre, mais um atentado contra o PT e sua figura mais emblemática.

O problema, para eles  é que fica cada vez mais difícil de colar. A postura envergonhada do PT (que divulgou a exoneração da funcionária e não deu uma linha sequer sobre as acusações) e de Dirceu (profundo silêncio) são um sintoma preocupante de que talvez se considere que o fardo começa a pesar. Doze anos de cana para defender um presidente que concede passaporte diplomático a uma secretária, cujo papel em suas viagens ao exterior era absolutamente nebuloso? Ninguém merece. Daí se entende que desta vez Lula vai ter de esperar a batata esfriar sozinho. Por enquanto, Dilma cresce em cima da decadência do ex-chefe. Precisa tomar cuidado com um abraço muito apertado vindo dele.

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E se vivêssemos todos juntos?

Por Jayme Serva (publicado anteriormente em Blue Bus)

A reunião acontecia por recomendação de uma assistente, que conhecia a pessoa que julgava certa para nossos negócios naquele momento. O assunto era uma possível consultoria sobre leis de incentivo. Pude notar que o grupo todo tinha mais ou menos a mesma idade, todos um pouco mais velhos do que eu. Logo, um deles assumiu o papel do líder. Tomou a palavra e não a largou mais até o momento em que considerou que eu estivesse completamente convencido.

Depois de dois segundos de um difuso mal-estar, perguntei qual era o histórico do grupo. Havia um administrador de empresas, e os outros (eram quatro) vinham de diferentes funções em agências de publicidade. Todos haviam decidido que não dariam mais sua força de trabalho para os barões e as multinacionais. Todos haviam decidido que iriam fazer um trabalho mais nobre. Todos estavam aliviados pelas gravatas desatadas que repousavam há meses ou anos nos armários. E todos tinham alguma observação a fazer sobre algo que, para eles, já nao existia mais, e que tinha sido muito bom.

Não fechamos negócio algum, o que eu precisava não era bem o que o grupo oferecia, era bem mais modesto e simples. Mais um pouco de conversa, dois ou três nomes de amigos comuns apareceram, um não-obrigado para os cafés a mais que ofereci. Despediram-se. Nunca mais os vi. Avisei minha assistente que tinha ido tudo bem, mas que não faríamos negócio, o pessoal que ela havia recomendado era “over-qualified”, eu os indicaria a outras pessoas.

Eu tinha assistido dois dias antes ao recém-lançado “E se vivêssemos todos juntos?”. Nele, os personagens decidem ir morar em uma mesma casa, para envelhecer juntos, e dignamente. Juntos e dignamente. Era assim que aqueles homens haviam tentado me vender algo que ainda não sabiam bem o que era. Juntos e dignamente. Fui para casa atrás de um uísque, que acabei não tomando.

Reforma política: qual?

Por Jayme Serva

Há uma discussão em pauta que, me parece, vai dar ainda muito pano pra manga: a tal reforma política, expressão, aliás, que só perde em frequência nas bocas de petistas para “companheiro”. Militantes das mais altas patentes do partido do governo dizem aos quatro ventos que “assim não dá, sem uma reforma política, a gente vai ser obrigado a continuar assim, governando com o Maluf, usando caixa 2, pagando e recebendo propina, fazendo acordo com latifundiário…” Todos os deslizes que os petistas cometeram nos últimos 12 anos não foram culpa deles, mas sim da ausência de uma reforma política que lhes permita fazer apenas o bem, sem olhar a quem e sem ter de seduzir os financiadores, esses corruptores das pessoas do bem.

Mas de que reforma política falam os companheiros? Insistem em colocar, no topo da lista, a adoção do financiamento público de campanhas, com a proibição da contribuição privada, seja de empresas, seja de pessoas físicas. Todas as campanhas políticas do país seriam financiadas por um fundo a ser composto por dinheiro da União, a ser calculado por uma fórmula simples, que multiplica o número de eleitores por R$ 7,00 (valores de 2005).

À primeira vista, é uma proposta estapafúrdia, mas cabe explicá-la melhor. As campanhas políticas já são financiadas em grande parte pelo Estado. O fundo partidário e o uso de um próprio da União, concedido à iniciativa privada, que é o tempo de rádio e TV, são recursos públicos concedidos aos partidos políticos. A ideia é que se proíba a parte privada, impedindo que pessoas e empresas doem recursos a partidos políticos e/ou candidatos, evitando assim a prevalência do poder econômico na escolha dos homens e partidos que nos representarão no Legislativo e nos comandarão no Executivo. Há quem diga que isso será o renascimento glorioso do caixa 2, mas os modernos mecanismos de controle podem fazer alguma frente  a isso.

O que parece mais intrigante é o que não está sendo dito nessa discussão: quando o coro petista na mídia e nas redes sociais fala que só a reforma política vai resolver as mazelas institucionais por que passamos todos, evidentemente não fala apenas do financiamento público de campanhas. Mas não fica claro o que defendem, talvez porque o que defendam não seja exatamente popular. É o parlamento unicameral? É o voto distrital, seja puro ou misto? É o voto por lista para eleições proporcionais? É o fim (ou a expansão) da reeleição? É o arrocho nas regras para a formação de partidos políticos ou sua manutenção?

É uma discussão inadiável, mas é preciso que parlamentares e partidos políticos se posicionem com mais clareza, para que a opinião pública vá participando mais desa discussão. Aliás, louvável a posição do deputado carioca Miro Teixeira (PDT) para quem questões-chave, como voto obrigatório e sistema representativo (distrital, proporcional ou misto) devam ser submetidos ao voto popular. “Quem tem legitimidade para decidir as regras eleitorais são os eleitores, não os eleitos”. Sábias palavras.

O carola, a Palestina e o PCC

Por Jayme Serva

Findo o feriado (em São Paulo, capital, o feriado começou em 15/11 e terminou em 20/11; dado o tamanho do enforcamento, deveria ser a comemoração de Tiradentes, mas é a somatória da Proclamação da República com o Dia Nacional da Consciência Negra), durante o qual não saí da cidade, e com trabalho a ponto de não serem os dias de folga suficientes para que eu entregasse todas as tarefas, ligo o rádio.

Não deveria. Entreouço ali o ministro-chefe-não-sei-bem-do-quê, Gilberto Carvalho — último representante não-padre da Teologia da Libertação,embaixador de Lula no governo Dilma, entre outras desqualidades –, a proferir sacanagens (sim, esses carolas não resistem a uma sacanagenzinha de vez em quando). Perguntado sobre a crise palestina, o sociocarola não perde tempo: diz logo que os tristes acontecimentos da Faixa de Gaza resultaram numa mortandade menor do que a da crise da segurança pública em São Paulo.

Uma estatística boboca mostra que, tomando o número de assassinatos no pior dia da crise em São Paulo e multiplicando por 365 (Carvalho, este é o número de dias em um ano), ainda assim teremos algo como 20 por cento a menos do que o Rio de Janeiro em assassinatos por 100 mil habitantes. Se levarmos a comparação a Salvador, alegremente governada pelo lado axé do PT, o capote estará montado.

É evidente o que querem os donos do poder federal em relação a São Paulo. Eufóricos com a tomada da Prefeitura (herdarão o melhor dos mundos, uma administração organizada e com dinheiro em caixa, ao contrário do que legaram), querem agora avançar sobre o governo do Estado. Para isso, vale qualquer coisa. Mentir, chantagear, aproveitar, vampirar, o que for preciso. A frase do carola predileto de Lula é apenas um exemplo. Antes dele, o próprio ministro da Justiça, o paulista José Eduardo Martins Cardozo, pré-candidatíssimo à vaga de Geraldo Alckmin, já havia tentado explorar a crise a seu favor. Quis o destino, ou pediu o anfíbio barbado, que Cardozo fizesse a infeliz declaração sobre a qualidade dos presídios — pertinente, caso os calabouços horrorosos a que se referiu não fossem responsabilidade também sua.  O que acontece em São Paulo é grave. É crime organizado enfrentando o Estado. Crime organizado que se arma pelos buracos da nossa fronteira (ou Cardozo acha que os AK-45 vêm dos pátios das cadeias que ele considera medievais ou ainda dos extensos canaviais de São Paulo?).

O Brasil pós-Collor aprendeu. Compensa uma despolitização generalizada com um pragmatismo absoluto. Tornamo-nos uma democracia de resultados — o que não é ruim, ao contrário. Quem aprendeu a surfar nessa onda foi justamente o homem público que melhor entendeu o papel da mídia, entre todos que tivemos: Lula. Governou com os fundamentos econômicos de FHC e, a partir dos programas de inclusão social do antecessor, construiu uma base eleitoral imbatível.

Agora chegou a hora de ver os limites dessa manipulação. Já ultrapassam aqueles eticamente mínimos, isso pode-se ver desde já. Como ficarão, só o tempo dirá. Mas as manifestações dos dois ministros já mostram que, perto do que esses paladinos da justiça podem fazer, as leis semiescritas do PCC parecerão até um padrão de ética e comportamento público para as futuras gerações.

E agora, Josés?

Por Jayme Serva

Ambos foram líderes estudantis dos mais importantes de seu tempo. Ambos amargaram exílio, por conta de perseguição política. Ambos voltaram ao país antes da promulgação da Lei de Anistia, um permanecendo clandestino, outro “semi-legalizado”, podendo viver abertamente no país, mas sem direitos políticos. Após a anistia, ambos assumiram a linha de frente em correntes políticas de oposição à ditadura militar.

Ambos tinham uma meta: chegar à presidência da República e conduzir o Brasil a dias melhores (cada um dentro de sua visão do que fosse isso). 2012 foi o ano em que a vida pública de ambos terminou, num igual e melancólico fracasso.

José Dirceu e José Serra vivem o epílogo de sua história amargando derrotas igualmente dramáticas — embora o destino de Dirceu se assemelhe ao enredo de uma tragédia, enquanto o de Serra se configure mais como um romance realista.

Não se pode negar o papel de ambos na travessia desse deserto que separava o Egito da ditadura da Canaã da plenitude democrática, os anos de transição entre a posse de Sarney e o impeachment de Collor de Melo. Cada um em uma estrada diferente, Serra e Dirceu foram diretores de cochia, sempre ajudando os atores protagonistas a levar o país a novos patamares de desenvolvimento, tanto político como econômico e social. Ambos esperaram pacientemente a sua vez de pisar o proscênio. Ambos chegaram a ser o mais importante ator coadjuvante. Ambos queriam o papel principal. A nenhum dos dois faltou luta.

O que faltou aos dois heróis da transição foi justamente um enredo vulgar, um roteiro folhetinesco, desses que acabam em casamento, no caso dos galãs, e no trono, no caso dos heróis. O que se configura, nas biografias de Serra e Dirceu, é pura literatura. Duas vidas como joguetes na pena de um autor inspirado, dois pescadores de Hemingway, dois Quixotes, dois Brás Cubas. É ainda possível que o epílogo de ambos se arraste por muitas páginas. É ainda possível que o enredo traga novas peripécias. Mas nenhum dos dois tem mais qualquer chance de ver a tão sonhada vulgaridade literária vir salvar suas histórias. Péssimo para eles. Um manjar para seus futuros biógrafos.

ENEM: mais um puxadinho

Por Jayme Serva

O ENEM 2012 mobilizou 6,5 milhões de estudantes em todo o Brasil. É o segundo maior exame de seleção do mundo em número de participantes, perdendo apenas para o vestibular unificado da China.

Criado em 1998, durante a gestão de Paulo Renato de Souza no Ministério da Educação, o ENEM tinha a finalidade de avaliar as escolas e seus currículos e, com isso, estabelecer os Parâmetros Curriculares Nacionais. Terminado o governo FHC, os novos ocupantes do MEC tiveram a ideia genial de adaptar o exame para cumprir outros fins, além dos originais. Assim, o ENEM passou a servir como vestibular, sendo o instrumento central do Sistema de Seleção Unificada (SiSU), que dá acesso a universidades públicas federais. Também é utilizado para conceder vagas do ProUni e financiamentos do FIES (fundo de crédito educativo do governo federal). Até como exame de conclusão de cursos de Educação de Jovens e Adultos — EJA — o ENEM é utilizado.

Para dar conta de tantas atribuições, o exame sofreu uma profunda transformação. De 63 questões a serem respondidas em 4 horas, passou a ter 180 questões e 10 horas de duração, divididas em dois dias. Em 2013, serão dois exames por ano.

Essa imensa adaptação de funções, atribuições e formatos, esse megapuxadinho, resulta em um processo de eficiência no mínimo duvidosa.

A começar do formato da prova. Não chega a ser um exame aprofundado, como é, por exemplo, a segunda fase da FUVEST, mas é muito mais extenso e exaustivo do que a primeira fase do exame paulista. Seu conteúdo parece mais um imenso teste de compreensão de leitura (necessária mas não suficiente para atestar capacidade de cursar uma universidade) do que um real teste de aferição de conhecimento nas diversas áreas do saber.

Por ser um exame de alcance nacional, tem provocado distorções sérias. No caso dos cursos de medicina, o uso do ENEM como exame unificado de seleção tem feito com que muitos jovens procurem universidades federais menos concorridas. Assim, em 2012, só 13 das 80 vagas de medicina da UFAL foram para estudantes de Alagoas. Na UFAM, a reitoria decidiu que metade das vagas seria pelo ENEM e metade por processo seletivo contínuo — pelo ENEM, nenhum dos selecionados em medicina era do Amazonas.

O que fica claro é que, para avaliar as instituições, sua atribuição original, o ENEM podia ser centralizado, uma vez que o que importa é a evolução ano a ano, seja a específica de cada instituição, seja a comparativa entre instituições. Não era, na origem, um exame de seleção. Já para avaliar a capacidade do aluno de cursar uma universidade, os critérios e a dinâmica deveriam ser outros. A começar pela descentralização. Nada garante que um exame composto em Brasília sirva com igual eficiência para aferir a capacitação de alunos do Amazonas e do Rio Grande do Sul.

Quanto às nobres intenções do governo, de eliminar uma forma elitista e massacrante de seleção, o que se fez foi criar o mesmo clima de tensão (ou pior), com um exame infinitamente inferior.

Por que não devolver às universidades o direito a selecionar seus alunos da forma que acharem mais adequada? Por que não acrescentar a eventuais exames vestibulares o critério do desempenho escolar do aluno? Da forma que está, o MEC simplesmente substituiu seis por meia dúzia, e ainda paga os juros do desgaste e dos riscos que uma operação monstro como essa provoca.

Quase-famosos

Por Jayme Serva

Estou lá eu lendo a Folha online quando vejo a chamada: “Vanessa Giácomo é flagrada ao lado de novo namorado em aeroporto”. Clico, a curiosidade é irresistível. Na nota, fico sabendo que Vanessa Giácomo, que tem 29 anos de idade, foi vista ao lado de seu namorado Giuseppe Dioguardi. Tudo isso aconteceu no Aeroporto Santos Dumont, e valeu uma nota de 9 linhas e 6 fotos, comprovando, sem margem de constestação, que Vanessa Giácomo e Giuseppe Dioguardi estavam juntos, lado a lado, em pleno saguão do velho e repaginado aeródromo.

Para saber quem é Giuseppe Dioguardi, até que foi rápido. A nota explica, logo após o nome, que o rapaz é “empresário de jogadores de futebol”. Já sobre Vanessa, demorou um pouco mais. Só na sétima das nove linas é que o texto nos dá conta de que ela é “atriz”, e estaria “separada do ator Daniel de Oliveira, 30, desde junho”.

Olho a linha fina da nota, no alto da página e leio “Celebridades”. Me senti o mais mal-informado dos seres humanos. Já admirei pessoas célebres. Pelé, Lennon e McCartney, Herbert von Karajan, Milton Glaser, outras menos internacionais, mas não menos valorosas, como Orlando Silva, Severino Araújo, Agustín Mario Cejas, Sérgio Cardoso, Rose di Primo, Alcione Mazzeo — todos me causaram algum tipo de emoção ou sentimento. Mesmo assim, passei batido pelo trabalho e pelos feitos de Vanessa Giácomo e Giuseppe Dioguardi. Sequer acompanhei sua crise com Daniel de Oliveira, que, tanto quanto Vanessa e Giuseppe, não faço a mais pálida ideia de quem seja.

Descobri que os tais 15 minutos de fama foram há muito substituídos por algo muito melhor: a eternidade da quase-fama. Vanessa Giácomo e Giuseppe Dioguardi se enquadram em uma nova categoria que abriga participantes de reality-shows, amigos de gente famosa, gente que quer porque quer um minuto de fama, amantes, brothers, agentes e auxiliares de jogadores de futebol, assistentes de palco, advogados de apresentadores, filhos de prefeitos do interior, noras de promotores, maquiadores de  atrizes, empresários de maquiadores. Todos ganham hoje a classificação de “celebridades”. Todos, ao menos uma vez, conquistam manchetes em publicações especializadas na quase-fama. Daí a profusão de retrancas excitantes, como “Gyzelly Souzza diz que prefere ficar só”, “Willianson Oliveira acompanha a sua Vanessa à Barra da Tijuca”, “Nascem os gêmeos de Sandra Manauara e MC Ricardinho”.

Não sei não, mas eu acho que preferia aqueles tempos em que havia menos e mais óbvios famosos. Para desmemoriados como eu, era tudo muito mais fácil.

Consciência flash

Por Jayme Serva

De Arnaldo Jabor a Dilma Rousseff, de Fernando Henrique Cardoso a Eduardo Matarazzo Suplicy, viu-se a unanimidade em torno de Barack Obama imperar entre pessoas que, vistas em plano próximo, são francamente antagônicas.

Isso inspira comentar. O que faz com que iracundos simpatizantes do lulopetismo desçam às mais profundas fossas do calão ao qualificar Arnaldo Jabor? Qual é a raiz do ódio e do desprezo que entusiasmados e irredutíveis defensores do atual governo apresentam, ao se referir ao ex-presidente FHC?

Fosse o atual governo socialista, tivesse ele confrontado os donos do capital, os bancos, as multinacionais, as grandes empresas privatizadas, como as teles ou a Vale, e, nesse caso, tivesse a oposição se manifestado contra, tudo certo: o embate político justificaria, senão o ódio, ao menos uma postura vigorosa de contenda.

Mas o fato é que não há embate, a não ser aquele criado midiaticamente, ou aquele que trata de questões subsidiárias, como a enfadonha discussão sobre o diploma de jornalismo — em que o PT não faz cerimônia ao adotar uma posição análoga ao da “Carta del Lavoro” ou ao sindicalismo getulista. Nas questões centrais, governa-se hoje como se governa desde 1993.

A pergunta que fica é: por que as posições são mais claras, quando se trata de avaliar a conjuntura americana, e são tão emaranhadas, quando se trata do plano nacional? A resposta pode ser encontrada no casamento amalgâmico entre a hipocrisia e a empáfia. Se de um lado o PT não tem qualquer pudor em adotar políticas econômicas e sociais que sempre combateu, o PSDB, crente de que era apenas um árbitro equidistante, e não um partido de oposição, jamais soube denunciar claramente essa troca de pauta do PT, e sempre foi hesitante em combater os desmandos do governo Lula — no que foi substituído pelo poder judiciário, que fez barba, cabelo e bigode, enquanto o PSDB só fazia a espuma.

Agora, quando a distância faz os inimigos e aliados mais facilmente identificáveis, temos um laivo, um flash de consciência sobre como deveria ser conduzida a política por aqui. Mas não adianta: isso passa, a semana que vem chega, as alianças estapafúrdias permanecem e se consolidam, e tudo continua como antes no país do dá-se-um-jeito.

A oposição representa

Por Jayme Serva

Finalmente o PSDB decidiu acompanhar o PPS (alguém que tivesse dormido em 1995 e acordado hoje pediria para dormir de novo ao ler esta frase) e assinar a representação ao Ministério Público pedindo abertura de inquérito para investigar a participação do então presidente Lula no esquema do chamado “mensalão”.

Com todos os riscos que essa atitude pode representar — rejeição popular, pelo amor que o povo dedica a Lula, é apenas o mais evidente –, finalmente o PSDB entendeu que é oposição ao atual governo, e não uma espécie de árbitro equidistante sobre quem cairia a responsabilidade de manter o país estável e governável (espécie de fantasia bem típica das personalidades dos tucanos históricos FHC e José Serra).

Desde que o caso foi encaminhado pelos procuradores da República ao Supremo que soou estranha a ausência de Lula na denúncia. Se entre os “quarenta ladrões” apontados pelo procurador que fez a denúncia, Antonio Fernando de Souza, estava José Dirceu, o braço direito do Presidente, o articulador político maior do governo Lula, o verdadeiro segundo homem da Nação, por que Lula foi tão convictamente excluído? O que o tornaria tão claramente inocente, já que tudo o que depois se mostrou ter acontecido acontecia a opoucos metros da sua sala? Devemos lembrar que, poucos dias antes da posse, no fervor das negociações para a formação do Ministério, Lula vetou pessoalmente a articulação de Dirceu com o PMDB para dar um ou dois ministérios ao partido e trazê-lo à coalizão. Aliás, há quem diga que a necessidade de articular o “mensalão” teria vindo daí. Pois então, Lula só mandava na hora de vetar? Não será razoável imaginar que ele, no mínimo, soubesse do que era feito para manter sua maioria mais ou menos estável?

As razões para investigar a participação de Lula são óbvias — o que não significa culpa, é bom lembrar. Isso só não aconteceu até aqui pelo zelo que os políticos dedicam à estabilidade (um Collor só basta) e pelo poder que Lula tinha, seja como presidente, seja como líder popular. Mas não só por isso: à época, o PSDB poderia ter representado contra o presidente (popularidade não pode ser o único crtitério a nortear as atitudes de um partido sério) e não o fez.

Quase não fez de novo agora. Já ia deixar pra lá mais um pouquinho, afinal não custa esperar mais uma manifestação do ministério público, até que Roberto Freire, deixado só, com a brocha na mão, decidiu que ia espalhar a tinta mesmo sozinho, não sem antes passar uma descompostura nos tucanos. Estes decidiram que mais uma medalha de indeciso não cairia bem neste momento crítico do partido, que precisa se vitaminar muito e rápido para enfrentar o furacão Dilma em 2014.

A representação ao ministério público é um começo para um partido que há tantos anos tem se mantido constrangido de ser oposição, aceitando calado todo tipo de calúnia, todo tipo de chacota, todo tipo de mentira disseminada por um partido que, na vida real, incorporou o modo tucano de governar e rejeitou algumas das mais comezinhas propostas da esquerda (mais precisamente, do “socialismo democrático”, com que hoje o PT se apresenta em seus documentos oficiais).

O PSDB tem muito a aprender com Lula. Ou com o finado Orestes Quércia. Ambos chegaram ao poder porque perceberam que quem está por baixo, mais dia, menos dia, sobe, desde que seja claramente identificado. Quércia saía de fusquinha pelo interior montando diretórios do então MDB, um partido de oposição consentida, à época uma simples caricatura, um coadjuvante pobre a legitimar a ditadura. Era a própria figura do Dom Quixote. Lula martelava sua forma particular de reproduzir os pensamentos do PT, mesmo quando a situação, na onda do Plano Real era a única opção razoável para um eleitor contente e aliviado com os progressos vindos do Plano Real.

Para o PSDB será bom exercitar-se como oposição, desde que faça essa atitude ser recheada com ideias para o Brasil. É hora de uma reavaliação do partido, digerindo os resultados de 2013, combinando coerência com renovação e entendendo que o seu lugar não é de plateia ou de árbitro, é de participante do jogo político. E é bom que faça isso urgente — atrás vem gente.