O carola, a Palestina e o PCC

Por Jayme Serva

Findo o feriado (em São Paulo, capital, o feriado começou em 15/11 e terminou em 20/11; dado o tamanho do enforcamento, deveria ser a comemoração de Tiradentes, mas é a somatória da Proclamação da República com o Dia Nacional da Consciência Negra), durante o qual não saí da cidade, e com trabalho a ponto de não serem os dias de folga suficientes para que eu entregasse todas as tarefas, ligo o rádio.

Não deveria. Entreouço ali o ministro-chefe-não-sei-bem-do-quê, Gilberto Carvalho — último representante não-padre da Teologia da Libertação,embaixador de Lula no governo Dilma, entre outras desqualidades –, a proferir sacanagens (sim, esses carolas não resistem a uma sacanagenzinha de vez em quando). Perguntado sobre a crise palestina, o sociocarola não perde tempo: diz logo que os tristes acontecimentos da Faixa de Gaza resultaram numa mortandade menor do que a da crise da segurança pública em São Paulo.

Uma estatística boboca mostra que, tomando o número de assassinatos no pior dia da crise em São Paulo e multiplicando por 365 (Carvalho, este é o número de dias em um ano), ainda assim teremos algo como 20 por cento a menos do que o Rio de Janeiro em assassinatos por 100 mil habitantes. Se levarmos a comparação a Salvador, alegremente governada pelo lado axé do PT, o capote estará montado.

É evidente o que querem os donos do poder federal em relação a São Paulo. Eufóricos com a tomada da Prefeitura (herdarão o melhor dos mundos, uma administração organizada e com dinheiro em caixa, ao contrário do que legaram), querem agora avançar sobre o governo do Estado. Para isso, vale qualquer coisa. Mentir, chantagear, aproveitar, vampirar, o que for preciso. A frase do carola predileto de Lula é apenas um exemplo. Antes dele, o próprio ministro da Justiça, o paulista José Eduardo Martins Cardozo, pré-candidatíssimo à vaga de Geraldo Alckmin, já havia tentado explorar a crise a seu favor. Quis o destino, ou pediu o anfíbio barbado, que Cardozo fizesse a infeliz declaração sobre a qualidade dos presídios — pertinente, caso os calabouços horrorosos a que se referiu não fossem responsabilidade também sua.  O que acontece em São Paulo é grave. É crime organizado enfrentando o Estado. Crime organizado que se arma pelos buracos da nossa fronteira (ou Cardozo acha que os AK-45 vêm dos pátios das cadeias que ele considera medievais ou ainda dos extensos canaviais de São Paulo?).

O Brasil pós-Collor aprendeu. Compensa uma despolitização generalizada com um pragmatismo absoluto. Tornamo-nos uma democracia de resultados — o que não é ruim, ao contrário. Quem aprendeu a surfar nessa onda foi justamente o homem público que melhor entendeu o papel da mídia, entre todos que tivemos: Lula. Governou com os fundamentos econômicos de FHC e, a partir dos programas de inclusão social do antecessor, construiu uma base eleitoral imbatível.

Agora chegou a hora de ver os limites dessa manipulação. Já ultrapassam aqueles eticamente mínimos, isso pode-se ver desde já. Como ficarão, só o tempo dirá. Mas as manifestações dos dois ministros já mostram que, perto do que esses paladinos da justiça podem fazer, as leis semiescritas do PCC parecerão até um padrão de ética e comportamento público para as futuras gerações.

Anúncios

4 pensamentos sobre “O carola, a Palestina e o PCC

  1. Fatima Alegria disse:

    Fantástico. Assino embaixo.

  2. jaymeserva disse:

    Obrigado, Fátima! Volte sempre! Bj

  3. eryroberto disse:

    Jayme, eu não escreveria sobre este assunto tão bem quanto você o fez, meu caro. Essas figuras citadas e outras tantas da mesma ‘religião partidária’ agem como verdadeiros abutres, com a particularidade que, tendo capacidade para pensar, transformam situações sociais diversas – como essa de São Paulo e a criminalidade – em carniça que lhes alimenta nas perspectivas de poder.

    Pior ainda, substimam a capacidade de pensar e interpretar os fatos das pessoas comuns. E assim, distorcem, mentem, chantageiam, bem como citado por você.

    Creio, apesar dessa despolitização que enfrentamos – e eu não tenho dúvidas que essa estratégia de governo populista, principalmente com os artifícios das bolsas e cotas da forma como estão sendo usadas hoje -, que só a luta de todos pelo avanço ainda que lento do nosso sistema democrático será capaz de enterrar essa nocividade política que temos instalada no Brasil.

  4. jaymeserva disse:

    Ery, eu acho que a capacidade desses caras de enganar o povo tem limites. O que é impressionante é como eles deixaram de ter qualquer prurido, mesmo sendo governo e entendendo que, quando se está lá, o buraco é mais embaixo. Onde fazem oposição, a demagogia e a mentira rolam soltas. Onde são situação, idem com sinal trocado. O pior (e de certa forma risível, mesmo que trágico) é que, quando criticados, a resposta é sempre a mesma: “Ah, o PSDB também faz…”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: