Arquivo mensal: dezembro 2012

O chumbo grosso e a propaganda

Por Jayme Serva

Deu no Blue Bus: “Jornal colocou anúncio de loja de armas bem ao lado de notícia do tiroteio”. O site de comunicação conta que o jornal Rock Hill Herald colocou o anúncio de varejo de uma loja de armas bem ao lado da notícia do massacre de Newtown, que matou 26 pessoas, entre elas 20 crianças.

A publicação se desculpou pela “infelicidade” da edição, enquanto o blog especializado em comunicação Copyranter espinafrou o veículo por ter cometido esse “descuido”. “O editor executivo deveria ver isso e poderia ter trocado o layout do jornal facilmente”, diz Mark Duffy, o blogueiro que edita o site.

Nenhum comentário sobre o fato aterrador de que, no país em que um lunático acabou de detonar uma pequena multidão — entre os mortos, está a própria mãe do assassino –, portando 3 armas diferentes, se colocam anúncios de varejo vendendo armas, da mesma forma que aqui se vendem dormitórios Bartira ou arroz agulhão extra. A imagem do anúncio é, por si só, chocante. Colocá-la ao lado da notícia sobre o crime, com foto dos familiares e tudo, é apenas evidenciar a barbárie, é colocar na mesma página as duas pontas de um mesmo problema.

De fato, me faz pensar se o editor não teria feito isso de propósito, uma forma velada de escancarar a estupidez de um país em que, em pleno século 21, se justifica a liberdade de comprar, possuir e portar uma arma com argumentos do começo do século 19, quando metade dos americanos tinham de se defender sozinhos das ameaças mais variadas, além de caçar o próprio alimento.

Hoje, tanto o poder de polícia está em cada canto daquele rico país, como as armas ganharam recursos que seriam inacreditáveis nos tempos de Daniel Boone e Wiatt Earp. Não faz mais sentido que alguém possa comprar livremente um AR-15 ou uma UZI ou mesmo uma pistola automática com mira laser, que dispara 10 tiros por segundo. O discurso de instituições conservadoras, como o National Rifle Association, soa hoje como escárnio sobre os cadáveres que, mais uma vez, a liberalidade injustificável produziu. Hoje, o telefone é que defende a população. O livre comércio de armas abastece débeis mentais que se acham personagens de vídeo-game. Muitos deles passam do ensaio à ação — e quando o fazem, estão abarrotados de armas e munição. Foi o que, mais uma vez, ocorreu.

Olhando esse quadro estapafúrdio, talvez tenhamos de agradecer ao editor do Rock Hill Herald, mesmo que tenha diagramado a página por engano.

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Israel e a Palestina: até quando o impasse?

Por Jayme Serva

Israel já deixou claro. Não tem intenção de cumprir os tratados de 1947, que previam dois estados convivendo na Palestina, nem qualquer outro. Hoje, o governo de Israel não apenas faz vista grossa como estimula a colonização dos territórios ocupados em 1967.

Há o argumento do radicalismo dos árabes, que jamais aceitaram a convivência com Israel (à exceção do Egito, a partir dos tratados de Camp David) ou sequer a existência do Estado judeu.  Sua simples extinção é defendida por muitos deles, o que justifica o permanente estado de alerta e a estrutura militar poderosa.

Mas o fato é que não há um movimento sequer, desde o assassinato de Yitzhak Rabin, para uma saída que não seja a militar, e que busque a convivência dos Estados. Fica evidente que a radicalização se instala e que qualquer possibilidade de conciliação já se extinguiu.

O que pode resultar dessa radicalização? É evidente que ela não durará eternamente. O pensamento de senso comum nos leva à certeza de que um lado prevalecerá sobre o outro. Qualquer que seja, trará consequências trágicas. Dado o isolamento do Estado de Israel — um país europeu plantado solitariamente no meio do Oriente Médio — e a perpetuação do impasse, é de se imaginar que, mesmo com a ajuda da maior potência bélica do planeta, um dia essa pequena fortaleza vai tremer.

Do jeito que a coisa vai, a única perspectiva que os árabes e persas vislumbram é a destruição pura e simples de Israel e de seu povo. A radicalização israelense não ajuda a mudar isso. Os argumentos são os de que as tentativas de entendimento seriam inúteis. Não é o que a história mostrou, ao menos em duas ocasiões. Camp David e Oslo trouxeram a possibilidade de um caminho pacífico. Mas a radicalização se acentuou justamente quando uma liderança que defendia a paz, como Rabin, foi assassinado por um fanático nacionalista — e segundo as teorias da conspiração, apoiado por agentes secretos (veja aqui e aqui) do Shin Bet.

O que esperar? Com a evolução da tecnologia e o barateamento de equipamentos sofisticados, a diferença de capacidade militar de Israel deixa de ser inatingível. Não é impossível que, em 20 ou 30 anos, Irã, Síria e grupos terroristas transnacionais consigam causar danos significativos a Israel e seu povo. Não haverá um caminho que evite isso e que eduque para a paz? 20 ou 30 anos são o  período que separa duas gerações. É tempo suficiente para que se comecem a deixar para trás as razões do conflito. Mas o esforço nesse caminho tem de começar já.

PT: sua alma, sua palma

Por Jayme Serva

Parecia um sussurro, agora já é um burburinho, e cresce.

Mais e mais petistas reclamam e mostram seu inconformismo com o relatório do deputado Odair Cunha (PT-MG), que acabou retirando a recomendação de indiciamento do jornalista Policarpo Júnior, de Veja, e do procurador Roberto Gurgel.

Frases como “Eu não voto, mais, nesse partidinho”, “Bye, bye, PT”, “Tristeza, indignação, desesperança e vergonha” sucedem-se em comentários nas redes sociais, revelando desapontamento e descrença na capacidade do partido de defender as causas mais nobres e de atacar os vilões eleitos pela militância — a imprensa, a “direita”, os poderosos.

Descontando uma puerilidade constrangedora, visível na maioria desses comentários, o que se vê é que o pragmatismo do PT talvez tenha esgotado seu crédito junto a um eleitorado acima de tudo disposto a acreditar. Acreditar que o PT estava enganando a direita — Sarney, Maluf, Costa Neto et caterva — para em seguida dar-lhe uma rasteira e fazer imperar o reinado do bem contra o mal. O mal, no caso, eram o PSDB, o PPS e o DEM. Este último é sucessor do PFL, partido que surgiu de uma dissidência do PDS, para apoiar a transição democrática e o nome de Tancredo Neves para conduzi-la. Já o PDS, agremiação que sustentava o governo militar, mudou de nome para PP e hoje tem um ministério no governo Lula. O nome mais destacado do partido é do ex-governador e hoje deputado Paulo Maluf, também destaque em lista internacional de procurados pela polícia.

Como se vê, a escolha do PSDB como inimigo preferencial não se deveu a qualquer cuidado ideológico do petismo, mas resumiu-se a uma disputa por poder. Por razões difíceis de explicar, mesmo quando guinou fortemente à direita, viabilizando a candidatura Lula-2002, o PT manteve sua militância, sempre atribuindo as críticas que recebia a uma imprensa traiçoeira e mal-intencionada e a uma elite ressentida. Assim, alimentava um certo pensamento mágico, bajulando os poderosos, de um lado, e piscando os olhinhos para a militância, de outro.

Mas há algo mais do que o recuo de Odair Cunha a gerar o inconformismo na militância petista. Mas, ainda disciplinada, é no deputado que ela desagua a dor de ver os sonhos e os ideais de uma sociedade mais justa guardados na bolsa de tão pouco principesca Rosemary.

No entanto, quem viu a disputa ideologicamente artificial que o PT empreendeu, notadamente a partir das eleições municipais de 1985, contra os que haviam recém-sucedido a ditadura, e buscavam um caminho para construir uma frente democrática com interesses comuns, logo entendeu que aquilo não acabaria bem.

Uma enorme capacidade de canalizar os anseios de uma sociedade cheia deles, de ecoar as palavras de ordem aparentemente mais justas (quem poderia ser contra “terra para quem nela trabalha”, “pelo fim da espoliação dos patrões”, “[o parlamento] são 300 picaretas com anel de doutor”), de fazer boa publicidade e de manter um discurso coeso, levaram o PT à presidência. Dali, o carisma de Lula fez o resto, em terreno fértil, galvanizando sua imagem de pai dos pobres, dos ricos e dos remediados.

Agora, a militância que o ajudou a chegar lá começa a reclamar. Como se Lula e o PT não tivessem estado sempre no mesmo lugar. Põem a culpa em um PT que mudou. Não mudou, não, apenas mostrou o que sempre foi. O que surpreende é a quantidade de gente inteligente que só vê isso agora, quando o problema, já visível a olho nu, foi traduzido para os termos de um folhetim de rodoviária. É triste dizer isso aos amigos petistas (dos meus, 99% de primeiríssima qualidade): sua alma, sua palma.