PT: sua alma, sua palma

Por Jayme Serva

Parecia um sussurro, agora já é um burburinho, e cresce.

Mais e mais petistas reclamam e mostram seu inconformismo com o relatório do deputado Odair Cunha (PT-MG), que acabou retirando a recomendação de indiciamento do jornalista Policarpo Júnior, de Veja, e do procurador Roberto Gurgel.

Frases como “Eu não voto, mais, nesse partidinho”, “Bye, bye, PT”, “Tristeza, indignação, desesperança e vergonha” sucedem-se em comentários nas redes sociais, revelando desapontamento e descrença na capacidade do partido de defender as causas mais nobres e de atacar os vilões eleitos pela militância — a imprensa, a “direita”, os poderosos.

Descontando uma puerilidade constrangedora, visível na maioria desses comentários, o que se vê é que o pragmatismo do PT talvez tenha esgotado seu crédito junto a um eleitorado acima de tudo disposto a acreditar. Acreditar que o PT estava enganando a direita — Sarney, Maluf, Costa Neto et caterva — para em seguida dar-lhe uma rasteira e fazer imperar o reinado do bem contra o mal. O mal, no caso, eram o PSDB, o PPS e o DEM. Este último é sucessor do PFL, partido que surgiu de uma dissidência do PDS, para apoiar a transição democrática e o nome de Tancredo Neves para conduzi-la. Já o PDS, agremiação que sustentava o governo militar, mudou de nome para PP e hoje tem um ministério no governo Lula. O nome mais destacado do partido é do ex-governador e hoje deputado Paulo Maluf, também destaque em lista internacional de procurados pela polícia.

Como se vê, a escolha do PSDB como inimigo preferencial não se deveu a qualquer cuidado ideológico do petismo, mas resumiu-se a uma disputa por poder. Por razões difíceis de explicar, mesmo quando guinou fortemente à direita, viabilizando a candidatura Lula-2002, o PT manteve sua militância, sempre atribuindo as críticas que recebia a uma imprensa traiçoeira e mal-intencionada e a uma elite ressentida. Assim, alimentava um certo pensamento mágico, bajulando os poderosos, de um lado, e piscando os olhinhos para a militância, de outro.

Mas há algo mais do que o recuo de Odair Cunha a gerar o inconformismo na militância petista. Mas, ainda disciplinada, é no deputado que ela desagua a dor de ver os sonhos e os ideais de uma sociedade mais justa guardados na bolsa de tão pouco principesca Rosemary.

No entanto, quem viu a disputa ideologicamente artificial que o PT empreendeu, notadamente a partir das eleições municipais de 1985, contra os que haviam recém-sucedido a ditadura, e buscavam um caminho para construir uma frente democrática com interesses comuns, logo entendeu que aquilo não acabaria bem.

Uma enorme capacidade de canalizar os anseios de uma sociedade cheia deles, de ecoar as palavras de ordem aparentemente mais justas (quem poderia ser contra “terra para quem nela trabalha”, “pelo fim da espoliação dos patrões”, “[o parlamento] são 300 picaretas com anel de doutor”), de fazer boa publicidade e de manter um discurso coeso, levaram o PT à presidência. Dali, o carisma de Lula fez o resto, em terreno fértil, galvanizando sua imagem de pai dos pobres, dos ricos e dos remediados.

Agora, a militância que o ajudou a chegar lá começa a reclamar. Como se Lula e o PT não tivessem estado sempre no mesmo lugar. Põem a culpa em um PT que mudou. Não mudou, não, apenas mostrou o que sempre foi. O que surpreende é a quantidade de gente inteligente que só vê isso agora, quando o problema, já visível a olho nu, foi traduzido para os termos de um folhetim de rodoviária. É triste dizer isso aos amigos petistas (dos meus, 99% de primeiríssima qualidade): sua alma, sua palma.

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