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O chumbo grosso e a propaganda

Por Jayme Serva

Deu no Blue Bus: “Jornal colocou anúncio de loja de armas bem ao lado de notícia do tiroteio”. O site de comunicação conta que o jornal Rock Hill Herald colocou o anúncio de varejo de uma loja de armas bem ao lado da notícia do massacre de Newtown, que matou 26 pessoas, entre elas 20 crianças.

A publicação se desculpou pela “infelicidade” da edição, enquanto o blog especializado em comunicação Copyranter espinafrou o veículo por ter cometido esse “descuido”. “O editor executivo deveria ver isso e poderia ter trocado o layout do jornal facilmente”, diz Mark Duffy, o blogueiro que edita o site.

Nenhum comentário sobre o fato aterrador de que, no país em que um lunático acabou de detonar uma pequena multidão — entre os mortos, está a própria mãe do assassino –, portando 3 armas diferentes, se colocam anúncios de varejo vendendo armas, da mesma forma que aqui se vendem dormitórios Bartira ou arroz agulhão extra. A imagem do anúncio é, por si só, chocante. Colocá-la ao lado da notícia sobre o crime, com foto dos familiares e tudo, é apenas evidenciar a barbárie, é colocar na mesma página as duas pontas de um mesmo problema.

De fato, me faz pensar se o editor não teria feito isso de propósito, uma forma velada de escancarar a estupidez de um país em que, em pleno século 21, se justifica a liberdade de comprar, possuir e portar uma arma com argumentos do começo do século 19, quando metade dos americanos tinham de se defender sozinhos das ameaças mais variadas, além de caçar o próprio alimento.

Hoje, tanto o poder de polícia está em cada canto daquele rico país, como as armas ganharam recursos que seriam inacreditáveis nos tempos de Daniel Boone e Wiatt Earp. Não faz mais sentido que alguém possa comprar livremente um AR-15 ou uma UZI ou mesmo uma pistola automática com mira laser, que dispara 10 tiros por segundo. O discurso de instituições conservadoras, como o National Rifle Association, soa hoje como escárnio sobre os cadáveres que, mais uma vez, a liberalidade injustificável produziu. Hoje, o telefone é que defende a população. O livre comércio de armas abastece débeis mentais que se acham personagens de vídeo-game. Muitos deles passam do ensaio à ação — e quando o fazem, estão abarrotados de armas e munição. Foi o que, mais uma vez, ocorreu.

Olhando esse quadro estapafúrdio, talvez tenhamos de agradecer ao editor do Rock Hill Herald, mesmo que tenha diagramado a página por engano.

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Israel e a Palestina: até quando o impasse?

Por Jayme Serva

Israel já deixou claro. Não tem intenção de cumprir os tratados de 1947, que previam dois estados convivendo na Palestina, nem qualquer outro. Hoje, o governo de Israel não apenas faz vista grossa como estimula a colonização dos territórios ocupados em 1967.

Há o argumento do radicalismo dos árabes, que jamais aceitaram a convivência com Israel (à exceção do Egito, a partir dos tratados de Camp David) ou sequer a existência do Estado judeu.  Sua simples extinção é defendida por muitos deles, o que justifica o permanente estado de alerta e a estrutura militar poderosa.

Mas o fato é que não há um movimento sequer, desde o assassinato de Yitzhak Rabin, para uma saída que não seja a militar, e que busque a convivência dos Estados. Fica evidente que a radicalização se instala e que qualquer possibilidade de conciliação já se extinguiu.

O que pode resultar dessa radicalização? É evidente que ela não durará eternamente. O pensamento de senso comum nos leva à certeza de que um lado prevalecerá sobre o outro. Qualquer que seja, trará consequências trágicas. Dado o isolamento do Estado de Israel — um país europeu plantado solitariamente no meio do Oriente Médio — e a perpetuação do impasse, é de se imaginar que, mesmo com a ajuda da maior potência bélica do planeta, um dia essa pequena fortaleza vai tremer.

Do jeito que a coisa vai, a única perspectiva que os árabes e persas vislumbram é a destruição pura e simples de Israel e de seu povo. A radicalização israelense não ajuda a mudar isso. Os argumentos são os de que as tentativas de entendimento seriam inúteis. Não é o que a história mostrou, ao menos em duas ocasiões. Camp David e Oslo trouxeram a possibilidade de um caminho pacífico. Mas a radicalização se acentuou justamente quando uma liderança que defendia a paz, como Rabin, foi assassinado por um fanático nacionalista — e segundo as teorias da conspiração, apoiado por agentes secretos (veja aqui e aqui) do Shin Bet.

O que esperar? Com a evolução da tecnologia e o barateamento de equipamentos sofisticados, a diferença de capacidade militar de Israel deixa de ser inatingível. Não é impossível que, em 20 ou 30 anos, Irã, Síria e grupos terroristas transnacionais consigam causar danos significativos a Israel e seu povo. Não haverá um caminho que evite isso e que eduque para a paz? 20 ou 30 anos são o  período que separa duas gerações. É tempo suficiente para que se comecem a deixar para trás as razões do conflito. Mas o esforço nesse caminho tem de começar já.