Arquivo da categoria: Política

Israel e a Palestina: até quando o impasse?

Por Jayme Serva

Israel já deixou claro. Não tem intenção de cumprir os tratados de 1947, que previam dois estados convivendo na Palestina, nem qualquer outro. Hoje, o governo de Israel não apenas faz vista grossa como estimula a colonização dos territórios ocupados em 1967.

Há o argumento do radicalismo dos árabes, que jamais aceitaram a convivência com Israel (à exceção do Egito, a partir dos tratados de Camp David) ou sequer a existência do Estado judeu.  Sua simples extinção é defendida por muitos deles, o que justifica o permanente estado de alerta e a estrutura militar poderosa.

Mas o fato é que não há um movimento sequer, desde o assassinato de Yitzhak Rabin, para uma saída que não seja a militar, e que busque a convivência dos Estados. Fica evidente que a radicalização se instala e que qualquer possibilidade de conciliação já se extinguiu.

O que pode resultar dessa radicalização? É evidente que ela não durará eternamente. O pensamento de senso comum nos leva à certeza de que um lado prevalecerá sobre o outro. Qualquer que seja, trará consequências trágicas. Dado o isolamento do Estado de Israel — um país europeu plantado solitariamente no meio do Oriente Médio — e a perpetuação do impasse, é de se imaginar que, mesmo com a ajuda da maior potência bélica do planeta, um dia essa pequena fortaleza vai tremer.

Do jeito que a coisa vai, a única perspectiva que os árabes e persas vislumbram é a destruição pura e simples de Israel e de seu povo. A radicalização israelense não ajuda a mudar isso. Os argumentos são os de que as tentativas de entendimento seriam inúteis. Não é o que a história mostrou, ao menos em duas ocasiões. Camp David e Oslo trouxeram a possibilidade de um caminho pacífico. Mas a radicalização se acentuou justamente quando uma liderança que defendia a paz, como Rabin, foi assassinado por um fanático nacionalista — e segundo as teorias da conspiração, apoiado por agentes secretos (veja aqui e aqui) do Shin Bet.

O que esperar? Com a evolução da tecnologia e o barateamento de equipamentos sofisticados, a diferença de capacidade militar de Israel deixa de ser inatingível. Não é impossível que, em 20 ou 30 anos, Irã, Síria e grupos terroristas transnacionais consigam causar danos significativos a Israel e seu povo. Não haverá um caminho que evite isso e que eduque para a paz? 20 ou 30 anos são o  período que separa duas gerações. É tempo suficiente para que se comecem a deixar para trás as razões do conflito. Mas o esforço nesse caminho tem de começar já.

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PT: sua alma, sua palma

Por Jayme Serva

Parecia um sussurro, agora já é um burburinho, e cresce.

Mais e mais petistas reclamam e mostram seu inconformismo com o relatório do deputado Odair Cunha (PT-MG), que acabou retirando a recomendação de indiciamento do jornalista Policarpo Júnior, de Veja, e do procurador Roberto Gurgel.

Frases como “Eu não voto, mais, nesse partidinho”, “Bye, bye, PT”, “Tristeza, indignação, desesperança e vergonha” sucedem-se em comentários nas redes sociais, revelando desapontamento e descrença na capacidade do partido de defender as causas mais nobres e de atacar os vilões eleitos pela militância — a imprensa, a “direita”, os poderosos.

Descontando uma puerilidade constrangedora, visível na maioria desses comentários, o que se vê é que o pragmatismo do PT talvez tenha esgotado seu crédito junto a um eleitorado acima de tudo disposto a acreditar. Acreditar que o PT estava enganando a direita — Sarney, Maluf, Costa Neto et caterva — para em seguida dar-lhe uma rasteira e fazer imperar o reinado do bem contra o mal. O mal, no caso, eram o PSDB, o PPS e o DEM. Este último é sucessor do PFL, partido que surgiu de uma dissidência do PDS, para apoiar a transição democrática e o nome de Tancredo Neves para conduzi-la. Já o PDS, agremiação que sustentava o governo militar, mudou de nome para PP e hoje tem um ministério no governo Lula. O nome mais destacado do partido é do ex-governador e hoje deputado Paulo Maluf, também destaque em lista internacional de procurados pela polícia.

Como se vê, a escolha do PSDB como inimigo preferencial não se deveu a qualquer cuidado ideológico do petismo, mas resumiu-se a uma disputa por poder. Por razões difíceis de explicar, mesmo quando guinou fortemente à direita, viabilizando a candidatura Lula-2002, o PT manteve sua militância, sempre atribuindo as críticas que recebia a uma imprensa traiçoeira e mal-intencionada e a uma elite ressentida. Assim, alimentava um certo pensamento mágico, bajulando os poderosos, de um lado, e piscando os olhinhos para a militância, de outro.

Mas há algo mais do que o recuo de Odair Cunha a gerar o inconformismo na militância petista. Mas, ainda disciplinada, é no deputado que ela desagua a dor de ver os sonhos e os ideais de uma sociedade mais justa guardados na bolsa de tão pouco principesca Rosemary.

No entanto, quem viu a disputa ideologicamente artificial que o PT empreendeu, notadamente a partir das eleições municipais de 1985, contra os que haviam recém-sucedido a ditadura, e buscavam um caminho para construir uma frente democrática com interesses comuns, logo entendeu que aquilo não acabaria bem.

Uma enorme capacidade de canalizar os anseios de uma sociedade cheia deles, de ecoar as palavras de ordem aparentemente mais justas (quem poderia ser contra “terra para quem nela trabalha”, “pelo fim da espoliação dos patrões”, “[o parlamento] são 300 picaretas com anel de doutor”), de fazer boa publicidade e de manter um discurso coeso, levaram o PT à presidência. Dali, o carisma de Lula fez o resto, em terreno fértil, galvanizando sua imagem de pai dos pobres, dos ricos e dos remediados.

Agora, a militância que o ajudou a chegar lá começa a reclamar. Como se Lula e o PT não tivessem estado sempre no mesmo lugar. Põem a culpa em um PT que mudou. Não mudou, não, apenas mostrou o que sempre foi. O que surpreende é a quantidade de gente inteligente que só vê isso agora, quando o problema, já visível a olho nu, foi traduzido para os termos de um folhetim de rodoviária. É triste dizer isso aos amigos petistas (dos meus, 99% de primeiríssima qualidade): sua alma, sua palma.

Quem?

Por Jayme Serva

O site do PT e o blog de José Dirceu calaram. Ninguém fala nada sobre Rosemary, a chefe de gabinete do escritório paulistano da Presidência da República. Mais realista que o rei, um solitário Paulo Henrique Amorim responde ao noticiário da forma como costuma fazer: acusando a imprensa. Os “blogs independentes” dos petistas ficam entre o envergonhado (Kotscho) e o triunfalista (Eduardo Guimarães).

E por que ninguém fala claro, ninguém se defende? Porque essas notícias são um vidrão de nitroglicerina. Se os malabarismos da política e a disposição ao sacrifício pessoal de José Dirceu salvaram Lula do mensalão, agora o ex-presidente arrumou sua Monica Lewinsky em versão dois litros.

Embora ninguém na grande imprensa tenha dito nada de mais comprometedor, as evidências transbordam. Cinco ligações, em média, por dia, de Lula ao gabinete — depois que ele já tinha deixado a presidência. Indicações inatingíveis, para uma funcionária com o cargo que Rosemary ocupava, realizadas, algumas a fórceps, como a indicação de Paulo Vieira, ora em cana, para a Agência Nacional de Águas. Vieira só foi aceito numa inacreditável terceira votação no Senado, empurrada pelo presidente da Casa, José “Homem-incomum” Sarney.

É óbvio que tem toucinho debaixo da farofa. Recuperados do choque, os petistas virão, treinados e sincronizados, defender na rede o seu guru, desqualificando a imprensa e dizendo que Rosemary é mais uma tentativa de golpe dos conspiradores de sempre, mais um atentado contra o PT e sua figura mais emblemática.

O problema, para eles  é que fica cada vez mais difícil de colar. A postura envergonhada do PT (que divulgou a exoneração da funcionária e não deu uma linha sequer sobre as acusações) e de Dirceu (profundo silêncio) são um sintoma preocupante de que talvez se considere que o fardo começa a pesar. Doze anos de cana para defender um presidente que concede passaporte diplomático a uma secretária, cujo papel em suas viagens ao exterior era absolutamente nebuloso? Ninguém merece. Daí se entende que desta vez Lula vai ter de esperar a batata esfriar sozinho. Por enquanto, Dilma cresce em cima da decadência do ex-chefe. Precisa tomar cuidado com um abraço muito apertado vindo dele.

Reforma política: qual?

Por Jayme Serva

Há uma discussão em pauta que, me parece, vai dar ainda muito pano pra manga: a tal reforma política, expressão, aliás, que só perde em frequência nas bocas de petistas para “companheiro”. Militantes das mais altas patentes do partido do governo dizem aos quatro ventos que “assim não dá, sem uma reforma política, a gente vai ser obrigado a continuar assim, governando com o Maluf, usando caixa 2, pagando e recebendo propina, fazendo acordo com latifundiário…” Todos os deslizes que os petistas cometeram nos últimos 12 anos não foram culpa deles, mas sim da ausência de uma reforma política que lhes permita fazer apenas o bem, sem olhar a quem e sem ter de seduzir os financiadores, esses corruptores das pessoas do bem.

Mas de que reforma política falam os companheiros? Insistem em colocar, no topo da lista, a adoção do financiamento público de campanhas, com a proibição da contribuição privada, seja de empresas, seja de pessoas físicas. Todas as campanhas políticas do país seriam financiadas por um fundo a ser composto por dinheiro da União, a ser calculado por uma fórmula simples, que multiplica o número de eleitores por R$ 7,00 (valores de 2005).

À primeira vista, é uma proposta estapafúrdia, mas cabe explicá-la melhor. As campanhas políticas já são financiadas em grande parte pelo Estado. O fundo partidário e o uso de um próprio da União, concedido à iniciativa privada, que é o tempo de rádio e TV, são recursos públicos concedidos aos partidos políticos. A ideia é que se proíba a parte privada, impedindo que pessoas e empresas doem recursos a partidos políticos e/ou candidatos, evitando assim a prevalência do poder econômico na escolha dos homens e partidos que nos representarão no Legislativo e nos comandarão no Executivo. Há quem diga que isso será o renascimento glorioso do caixa 2, mas os modernos mecanismos de controle podem fazer alguma frente  a isso.

O que parece mais intrigante é o que não está sendo dito nessa discussão: quando o coro petista na mídia e nas redes sociais fala que só a reforma política vai resolver as mazelas institucionais por que passamos todos, evidentemente não fala apenas do financiamento público de campanhas. Mas não fica claro o que defendem, talvez porque o que defendam não seja exatamente popular. É o parlamento unicameral? É o voto distrital, seja puro ou misto? É o voto por lista para eleições proporcionais? É o fim (ou a expansão) da reeleição? É o arrocho nas regras para a formação de partidos políticos ou sua manutenção?

É uma discussão inadiável, mas é preciso que parlamentares e partidos políticos se posicionem com mais clareza, para que a opinião pública vá participando mais desa discussão. Aliás, louvável a posição do deputado carioca Miro Teixeira (PDT) para quem questões-chave, como voto obrigatório e sistema representativo (distrital, proporcional ou misto) devam ser submetidos ao voto popular. “Quem tem legitimidade para decidir as regras eleitorais são os eleitores, não os eleitos”. Sábias palavras.

O carola, a Palestina e o PCC

Por Jayme Serva

Findo o feriado (em São Paulo, capital, o feriado começou em 15/11 e terminou em 20/11; dado o tamanho do enforcamento, deveria ser a comemoração de Tiradentes, mas é a somatória da Proclamação da República com o Dia Nacional da Consciência Negra), durante o qual não saí da cidade, e com trabalho a ponto de não serem os dias de folga suficientes para que eu entregasse todas as tarefas, ligo o rádio.

Não deveria. Entreouço ali o ministro-chefe-não-sei-bem-do-quê, Gilberto Carvalho — último representante não-padre da Teologia da Libertação,embaixador de Lula no governo Dilma, entre outras desqualidades –, a proferir sacanagens (sim, esses carolas não resistem a uma sacanagenzinha de vez em quando). Perguntado sobre a crise palestina, o sociocarola não perde tempo: diz logo que os tristes acontecimentos da Faixa de Gaza resultaram numa mortandade menor do que a da crise da segurança pública em São Paulo.

Uma estatística boboca mostra que, tomando o número de assassinatos no pior dia da crise em São Paulo e multiplicando por 365 (Carvalho, este é o número de dias em um ano), ainda assim teremos algo como 20 por cento a menos do que o Rio de Janeiro em assassinatos por 100 mil habitantes. Se levarmos a comparação a Salvador, alegremente governada pelo lado axé do PT, o capote estará montado.

É evidente o que querem os donos do poder federal em relação a São Paulo. Eufóricos com a tomada da Prefeitura (herdarão o melhor dos mundos, uma administração organizada e com dinheiro em caixa, ao contrário do que legaram), querem agora avançar sobre o governo do Estado. Para isso, vale qualquer coisa. Mentir, chantagear, aproveitar, vampirar, o que for preciso. A frase do carola predileto de Lula é apenas um exemplo. Antes dele, o próprio ministro da Justiça, o paulista José Eduardo Martins Cardozo, pré-candidatíssimo à vaga de Geraldo Alckmin, já havia tentado explorar a crise a seu favor. Quis o destino, ou pediu o anfíbio barbado, que Cardozo fizesse a infeliz declaração sobre a qualidade dos presídios — pertinente, caso os calabouços horrorosos a que se referiu não fossem responsabilidade também sua.  O que acontece em São Paulo é grave. É crime organizado enfrentando o Estado. Crime organizado que se arma pelos buracos da nossa fronteira (ou Cardozo acha que os AK-45 vêm dos pátios das cadeias que ele considera medievais ou ainda dos extensos canaviais de São Paulo?).

O Brasil pós-Collor aprendeu. Compensa uma despolitização generalizada com um pragmatismo absoluto. Tornamo-nos uma democracia de resultados — o que não é ruim, ao contrário. Quem aprendeu a surfar nessa onda foi justamente o homem público que melhor entendeu o papel da mídia, entre todos que tivemos: Lula. Governou com os fundamentos econômicos de FHC e, a partir dos programas de inclusão social do antecessor, construiu uma base eleitoral imbatível.

Agora chegou a hora de ver os limites dessa manipulação. Já ultrapassam aqueles eticamente mínimos, isso pode-se ver desde já. Como ficarão, só o tempo dirá. Mas as manifestações dos dois ministros já mostram que, perto do que esses paladinos da justiça podem fazer, as leis semiescritas do PCC parecerão até um padrão de ética e comportamento público para as futuras gerações.

Consciência flash

Por Jayme Serva

De Arnaldo Jabor a Dilma Rousseff, de Fernando Henrique Cardoso a Eduardo Matarazzo Suplicy, viu-se a unanimidade em torno de Barack Obama imperar entre pessoas que, vistas em plano próximo, são francamente antagônicas.

Isso inspira comentar. O que faz com que iracundos simpatizantes do lulopetismo desçam às mais profundas fossas do calão ao qualificar Arnaldo Jabor? Qual é a raiz do ódio e do desprezo que entusiasmados e irredutíveis defensores do atual governo apresentam, ao se referir ao ex-presidente FHC?

Fosse o atual governo socialista, tivesse ele confrontado os donos do capital, os bancos, as multinacionais, as grandes empresas privatizadas, como as teles ou a Vale, e, nesse caso, tivesse a oposição se manifestado contra, tudo certo: o embate político justificaria, senão o ódio, ao menos uma postura vigorosa de contenda.

Mas o fato é que não há embate, a não ser aquele criado midiaticamente, ou aquele que trata de questões subsidiárias, como a enfadonha discussão sobre o diploma de jornalismo — em que o PT não faz cerimônia ao adotar uma posição análoga ao da “Carta del Lavoro” ou ao sindicalismo getulista. Nas questões centrais, governa-se hoje como se governa desde 1993.

A pergunta que fica é: por que as posições são mais claras, quando se trata de avaliar a conjuntura americana, e são tão emaranhadas, quando se trata do plano nacional? A resposta pode ser encontrada no casamento amalgâmico entre a hipocrisia e a empáfia. Se de um lado o PT não tem qualquer pudor em adotar políticas econômicas e sociais que sempre combateu, o PSDB, crente de que era apenas um árbitro equidistante, e não um partido de oposição, jamais soube denunciar claramente essa troca de pauta do PT, e sempre foi hesitante em combater os desmandos do governo Lula — no que foi substituído pelo poder judiciário, que fez barba, cabelo e bigode, enquanto o PSDB só fazia a espuma.

Agora, quando a distância faz os inimigos e aliados mais facilmente identificáveis, temos um laivo, um flash de consciência sobre como deveria ser conduzida a política por aqui. Mas não adianta: isso passa, a semana que vem chega, as alianças estapafúrdias permanecem e se consolidam, e tudo continua como antes no país do dá-se-um-jeito.

A oposição representa

Por Jayme Serva

Finalmente o PSDB decidiu acompanhar o PPS (alguém que tivesse dormido em 1995 e acordado hoje pediria para dormir de novo ao ler esta frase) e assinar a representação ao Ministério Público pedindo abertura de inquérito para investigar a participação do então presidente Lula no esquema do chamado “mensalão”.

Com todos os riscos que essa atitude pode representar — rejeição popular, pelo amor que o povo dedica a Lula, é apenas o mais evidente –, finalmente o PSDB entendeu que é oposição ao atual governo, e não uma espécie de árbitro equidistante sobre quem cairia a responsabilidade de manter o país estável e governável (espécie de fantasia bem típica das personalidades dos tucanos históricos FHC e José Serra).

Desde que o caso foi encaminhado pelos procuradores da República ao Supremo que soou estranha a ausência de Lula na denúncia. Se entre os “quarenta ladrões” apontados pelo procurador que fez a denúncia, Antonio Fernando de Souza, estava José Dirceu, o braço direito do Presidente, o articulador político maior do governo Lula, o verdadeiro segundo homem da Nação, por que Lula foi tão convictamente excluído? O que o tornaria tão claramente inocente, já que tudo o que depois se mostrou ter acontecido acontecia a opoucos metros da sua sala? Devemos lembrar que, poucos dias antes da posse, no fervor das negociações para a formação do Ministério, Lula vetou pessoalmente a articulação de Dirceu com o PMDB para dar um ou dois ministérios ao partido e trazê-lo à coalizão. Aliás, há quem diga que a necessidade de articular o “mensalão” teria vindo daí. Pois então, Lula só mandava na hora de vetar? Não será razoável imaginar que ele, no mínimo, soubesse do que era feito para manter sua maioria mais ou menos estável?

As razões para investigar a participação de Lula são óbvias — o que não significa culpa, é bom lembrar. Isso só não aconteceu até aqui pelo zelo que os políticos dedicam à estabilidade (um Collor só basta) e pelo poder que Lula tinha, seja como presidente, seja como líder popular. Mas não só por isso: à época, o PSDB poderia ter representado contra o presidente (popularidade não pode ser o único crtitério a nortear as atitudes de um partido sério) e não o fez.

Quase não fez de novo agora. Já ia deixar pra lá mais um pouquinho, afinal não custa esperar mais uma manifestação do ministério público, até que Roberto Freire, deixado só, com a brocha na mão, decidiu que ia espalhar a tinta mesmo sozinho, não sem antes passar uma descompostura nos tucanos. Estes decidiram que mais uma medalha de indeciso não cairia bem neste momento crítico do partido, que precisa se vitaminar muito e rápido para enfrentar o furacão Dilma em 2014.

A representação ao ministério público é um começo para um partido que há tantos anos tem se mantido constrangido de ser oposição, aceitando calado todo tipo de calúnia, todo tipo de chacota, todo tipo de mentira disseminada por um partido que, na vida real, incorporou o modo tucano de governar e rejeitou algumas das mais comezinhas propostas da esquerda (mais precisamente, do “socialismo democrático”, com que hoje o PT se apresenta em seus documentos oficiais).

O PSDB tem muito a aprender com Lula. Ou com o finado Orestes Quércia. Ambos chegaram ao poder porque perceberam que quem está por baixo, mais dia, menos dia, sobe, desde que seja claramente identificado. Quércia saía de fusquinha pelo interior montando diretórios do então MDB, um partido de oposição consentida, à época uma simples caricatura, um coadjuvante pobre a legitimar a ditadura. Era a própria figura do Dom Quixote. Lula martelava sua forma particular de reproduzir os pensamentos do PT, mesmo quando a situação, na onda do Plano Real era a única opção razoável para um eleitor contente e aliviado com os progressos vindos do Plano Real.

Para o PSDB será bom exercitar-se como oposição, desde que faça essa atitude ser recheada com ideias para o Brasil. É hora de uma reavaliação do partido, digerindo os resultados de 2013, combinando coerência com renovação e entendendo que o seu lugar não é de plateia ou de árbitro, é de participante do jogo político. E é bom que faça isso urgente — atrás vem gente.