Quase-famosos

Por Jayme Serva

Estou lá eu lendo a Folha online quando vejo a chamada: “Vanessa Giácomo é flagrada ao lado de novo namorado em aeroporto”. Clico, a curiosidade é irresistível. Na nota, fico sabendo que Vanessa Giácomo, que tem 29 anos de idade, foi vista ao lado de seu namorado Giuseppe Dioguardi. Tudo isso aconteceu no Aeroporto Santos Dumont, e valeu uma nota de 9 linhas e 6 fotos, comprovando, sem margem de constestação, que Vanessa Giácomo e Giuseppe Dioguardi estavam juntos, lado a lado, em pleno saguão do velho e repaginado aeródromo.

Para saber quem é Giuseppe Dioguardi, até que foi rápido. A nota explica, logo após o nome, que o rapaz é “empresário de jogadores de futebol”. Já sobre Vanessa, demorou um pouco mais. Só na sétima das nove linas é que o texto nos dá conta de que ela é “atriz”, e estaria “separada do ator Daniel de Oliveira, 30, desde junho”.

Olho a linha fina da nota, no alto da página e leio “Celebridades”. Me senti o mais mal-informado dos seres humanos. Já admirei pessoas célebres. Pelé, Lennon e McCartney, Herbert von Karajan, Milton Glaser, outras menos internacionais, mas não menos valorosas, como Orlando Silva, Severino Araújo, Agustín Mario Cejas, Sérgio Cardoso, Rose di Primo, Alcione Mazzeo — todos me causaram algum tipo de emoção ou sentimento. Mesmo assim, passei batido pelo trabalho e pelos feitos de Vanessa Giácomo e Giuseppe Dioguardi. Sequer acompanhei sua crise com Daniel de Oliveira, que, tanto quanto Vanessa e Giuseppe, não faço a mais pálida ideia de quem seja.

Descobri que os tais 15 minutos de fama foram há muito substituídos por algo muito melhor: a eternidade da quase-fama. Vanessa Giácomo e Giuseppe Dioguardi se enquadram em uma nova categoria que abriga participantes de reality-shows, amigos de gente famosa, gente que quer porque quer um minuto de fama, amantes, brothers, agentes e auxiliares de jogadores de futebol, assistentes de palco, advogados de apresentadores, filhos de prefeitos do interior, noras de promotores, maquiadores de  atrizes, empresários de maquiadores. Todos ganham hoje a classificação de “celebridades”. Todos, ao menos uma vez, conquistam manchetes em publicações especializadas na quase-fama. Daí a profusão de retrancas excitantes, como “Gyzelly Souzza diz que prefere ficar só”, “Willianson Oliveira acompanha a sua Vanessa à Barra da Tijuca”, “Nascem os gêmeos de Sandra Manauara e MC Ricardinho”.

Não sei não, mas eu acho que preferia aqueles tempos em que havia menos e mais óbvios famosos. Para desmemoriados como eu, era tudo muito mais fácil.

Consciência flash

Por Jayme Serva

De Arnaldo Jabor a Dilma Rousseff, de Fernando Henrique Cardoso a Eduardo Matarazzo Suplicy, viu-se a unanimidade em torno de Barack Obama imperar entre pessoas que, vistas em plano próximo, são francamente antagônicas.

Isso inspira comentar. O que faz com que iracundos simpatizantes do lulopetismo desçam às mais profundas fossas do calão ao qualificar Arnaldo Jabor? Qual é a raiz do ódio e do desprezo que entusiasmados e irredutíveis defensores do atual governo apresentam, ao se referir ao ex-presidente FHC?

Fosse o atual governo socialista, tivesse ele confrontado os donos do capital, os bancos, as multinacionais, as grandes empresas privatizadas, como as teles ou a Vale, e, nesse caso, tivesse a oposição se manifestado contra, tudo certo: o embate político justificaria, senão o ódio, ao menos uma postura vigorosa de contenda.

Mas o fato é que não há embate, a não ser aquele criado midiaticamente, ou aquele que trata de questões subsidiárias, como a enfadonha discussão sobre o diploma de jornalismo — em que o PT não faz cerimônia ao adotar uma posição análoga ao da “Carta del Lavoro” ou ao sindicalismo getulista. Nas questões centrais, governa-se hoje como se governa desde 1993.

A pergunta que fica é: por que as posições são mais claras, quando se trata de avaliar a conjuntura americana, e são tão emaranhadas, quando se trata do plano nacional? A resposta pode ser encontrada no casamento amalgâmico entre a hipocrisia e a empáfia. Se de um lado o PT não tem qualquer pudor em adotar políticas econômicas e sociais que sempre combateu, o PSDB, crente de que era apenas um árbitro equidistante, e não um partido de oposição, jamais soube denunciar claramente essa troca de pauta do PT, e sempre foi hesitante em combater os desmandos do governo Lula — no que foi substituído pelo poder judiciário, que fez barba, cabelo e bigode, enquanto o PSDB só fazia a espuma.

Agora, quando a distância faz os inimigos e aliados mais facilmente identificáveis, temos um laivo, um flash de consciência sobre como deveria ser conduzida a política por aqui. Mas não adianta: isso passa, a semana que vem chega, as alianças estapafúrdias permanecem e se consolidam, e tudo continua como antes no país do dá-se-um-jeito.

A oposição representa

Por Jayme Serva

Finalmente o PSDB decidiu acompanhar o PPS (alguém que tivesse dormido em 1995 e acordado hoje pediria para dormir de novo ao ler esta frase) e assinar a representação ao Ministério Público pedindo abertura de inquérito para investigar a participação do então presidente Lula no esquema do chamado “mensalão”.

Com todos os riscos que essa atitude pode representar — rejeição popular, pelo amor que o povo dedica a Lula, é apenas o mais evidente –, finalmente o PSDB entendeu que é oposição ao atual governo, e não uma espécie de árbitro equidistante sobre quem cairia a responsabilidade de manter o país estável e governável (espécie de fantasia bem típica das personalidades dos tucanos históricos FHC e José Serra).

Desde que o caso foi encaminhado pelos procuradores da República ao Supremo que soou estranha a ausência de Lula na denúncia. Se entre os “quarenta ladrões” apontados pelo procurador que fez a denúncia, Antonio Fernando de Souza, estava José Dirceu, o braço direito do Presidente, o articulador político maior do governo Lula, o verdadeiro segundo homem da Nação, por que Lula foi tão convictamente excluído? O que o tornaria tão claramente inocente, já que tudo o que depois se mostrou ter acontecido acontecia a opoucos metros da sua sala? Devemos lembrar que, poucos dias antes da posse, no fervor das negociações para a formação do Ministério, Lula vetou pessoalmente a articulação de Dirceu com o PMDB para dar um ou dois ministérios ao partido e trazê-lo à coalizão. Aliás, há quem diga que a necessidade de articular o “mensalão” teria vindo daí. Pois então, Lula só mandava na hora de vetar? Não será razoável imaginar que ele, no mínimo, soubesse do que era feito para manter sua maioria mais ou menos estável?

As razões para investigar a participação de Lula são óbvias — o que não significa culpa, é bom lembrar. Isso só não aconteceu até aqui pelo zelo que os políticos dedicam à estabilidade (um Collor só basta) e pelo poder que Lula tinha, seja como presidente, seja como líder popular. Mas não só por isso: à época, o PSDB poderia ter representado contra o presidente (popularidade não pode ser o único crtitério a nortear as atitudes de um partido sério) e não o fez.

Quase não fez de novo agora. Já ia deixar pra lá mais um pouquinho, afinal não custa esperar mais uma manifestação do ministério público, até que Roberto Freire, deixado só, com a brocha na mão, decidiu que ia espalhar a tinta mesmo sozinho, não sem antes passar uma descompostura nos tucanos. Estes decidiram que mais uma medalha de indeciso não cairia bem neste momento crítico do partido, que precisa se vitaminar muito e rápido para enfrentar o furacão Dilma em 2014.

A representação ao ministério público é um começo para um partido que há tantos anos tem se mantido constrangido de ser oposição, aceitando calado todo tipo de calúnia, todo tipo de chacota, todo tipo de mentira disseminada por um partido que, na vida real, incorporou o modo tucano de governar e rejeitou algumas das mais comezinhas propostas da esquerda (mais precisamente, do “socialismo democrático”, com que hoje o PT se apresenta em seus documentos oficiais).

O PSDB tem muito a aprender com Lula. Ou com o finado Orestes Quércia. Ambos chegaram ao poder porque perceberam que quem está por baixo, mais dia, menos dia, sobe, desde que seja claramente identificado. Quércia saía de fusquinha pelo interior montando diretórios do então MDB, um partido de oposição consentida, à época uma simples caricatura, um coadjuvante pobre a legitimar a ditadura. Era a própria figura do Dom Quixote. Lula martelava sua forma particular de reproduzir os pensamentos do PT, mesmo quando a situação, na onda do Plano Real era a única opção razoável para um eleitor contente e aliviado com os progressos vindos do Plano Real.

Para o PSDB será bom exercitar-se como oposição, desde que faça essa atitude ser recheada com ideias para o Brasil. É hora de uma reavaliação do partido, digerindo os resultados de 2013, combinando coerência com renovação e entendendo que o seu lugar não é de plateia ou de árbitro, é de participante do jogo político. E é bom que faça isso urgente — atrás vem gente.